Dono de botequim que se preze tem que negar o fiado, evitar beber na frente da freguesia e, principalmente, ser chato. Daqueles bem abusados mesmo. É assim, convicto, que o ex-soldado do Exército Francisco de Assis leva o barco devagar como o proprietário mais antigo de um boteco no Beco da Lama, região tradicionalmente boêmia do Centro Histórico de Natal. O expediente no bar do Chico segue, religiosamente, o calendário de segunda à sábado. Feriado também é dia de descanso para ele e dona Tica, cozinheira da mão boa que "aguenta" Chico há 26 anos. "A gente briga, mas a gente se ama", diz, rindo, a companheira de trabalho.
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O velho portão de ferro do boteco levanta por volta das 7h e só vai dormir quando o ponteiro do relógio bate na casa das 20h. Mas nem sempre foi assim. Antigamente, até o início dos anos 90, a madrugada era quem ditava o ritmo. Tempo em que o Beco da Lama tinha "seu" Nasi e dona Odete como expoentes na direção dos botequins da área. Hoje, sem o mesmo glamour, é Chico quem guarda o posto de mais antigo dono de bar da região. "A gente ia até uma da madrugada. ´Seu` Nasi fechava sempre às 21h. Depois disso, os clientes vinham para cá", lembra.
Aos 60 anos de idade, Chico dedicou mais da metade da vida ao ofício de servir, receber, ouvir e reclamar dos clientes. "É um sonho realizado. Sempre tive vontade de abrir um bar. Fiquei no Exército durante seis anos e, quando saí, não tinha emprego. Em três meses, apareceu o bar. Dia 12 de novembro de 1976", conta sentado atrás do balcão.
Chico fala da vida com conhecimento de causa. Há 33 anos no comando do estabelecimento, é um cara realizado, mas admite uma saudade incurável do tempo em que o Centro Histórico de Natal era mais valorizado e a correria diária dos trabalhadores desembocava sempre no Beco da Lama. "Na época do Bandern e do cartório tinha muitos clientes. O problema também é que a cidade cresceu para a Zona Sul e a maioria do pessoal que trabalha no Centro, hoje mora em bairros afastados, como Potilândia, Candelária, Neópolis, Nova Parnamirim. A cidade parou aqui", diz.
Nesse período de mais de três décadas, o Beco da Lama também mudou. E, segundo Chico, para pior. Se antes os fundos das lojas da outra margem da rua, localizadas de frente para os bares, eram abertos, o que facilitava o acesso dos clientes, hoje o comércio virou, literalmente, as costas para o Beco. O dono do bar do Chico é do tempo em que o calçamento da rua era de paralelepípedo. A mudança para o cimentado é a única transformação positiva apontada por ele na área em mais de 30 anos no estabelecimento. "Desde que eu vim para cá ouço falar na revitalização do Beco da Lama e ninguém faz nada. Vejo as pessoas usarem muito o nome do Beco, mas nem as festas estão sendo feitas mais aqui. Agora é tudo nas praças", reclama.