
Eis mais um caso onde o homem é mais conhecido pelo apelido que pelo nome. Foi jogador, meiocampista, no Alecrim, no ABC e no Ferroviário; mas ganhou fama mesmo como professor e como preparador físico. O nome do homem? Francisco Carlos Costa - ou melhor, Cacau. ‘‘Se ligarem para minha casa procurando pelo nome, ninguém me acha!’’, diz, às risadas.
Cacau nasceu em Santana do Matos, meados de maio de 1956, dois dias após a data dedicada à Abolição dos Escravos. “Apenas nasci lá. O apelido foi coisa de família, nem eu sei! Minha infância foi toda em Natal, vim para cá com 4 anos (de idade), para o bairro onde minha mãe mora até hoje, Lagoa Seca, perto de onde está hoje a UnP-Salgado Filho. Por ali tinha muito campo para jogar, e como (o ingresso para) a escola só era a partir dos 8 anos... o futebol era uma grande paixão naquela época, jogava-se a pelada pela pelada”.
Um homem chamado “Seu” Amorim.
O futebol mesmo, começou junto com os tempos de escola. E assim chegou o ano de 1973. Um certo homem, conhecido por portar uma pasta e andar pelos “poeirões” da cidade buscando talentos, encantou-se com o futebol de Cacau. “Ele se chamava Amorim” - Alberto Amorim, dirigente alvinegro - “Ele me levou pra jogar no time juvenil do ABC. Naquele tempo, os juvenis jogavam até a idade de 21 anos... e eu tinha apenas 14!”.
Pronto, lá foi Cacau para Morro Branco, integrar-se a uma equipe que mais tarde rendeu alguns atletas que seguiram na carreira e ingressaram entre os profissionais, como o goleiro Souza, Teotônio, Roberto Amorim, Júnior, Ari, Djalma e Jorge Calaça. O técnico? Nada menos que José Djalma, o Zé Tenente. “Jogávamos na preliminar dos jogos principais no Castelão (hoje Machadão)”, lembra. A esta altura, paralelo ao futebol, seguia com os estudos - o Segundo Grau, hoje Ensino Médio - na então ETFRN (hoje Cefet-ETFRN).
Ascensão no Alecrim
Ficou até 1974. No ano seguinte, pausa para o Serviço Militar, onde atuou no Exército. Voltou ao futebol, ao ABC, em 1976 - e, ao mesmo tempo, foi estudar Mineração na ETFRN. “Só que havia incompatibilidade nos horários”. Complicou... Foi aí que apareceu a figura de Jorge Moura, então professor na ETFRN. “Ele me convidou para ir para o Alecrim, os juvenis do Alecrim. Naquele tempo não haviam os juniores”. Sagrou-se vice-campeão estadual.
Se bem que, no meio do caminho, se viu promovido ao time principal. Ué, já? “Foi assim, num jogo entre Alecrim e Ferroviário, no (estádio) Juvenal Lamartine. Vencemos, não lembro se o placar foi 4 ou 5 a 1, sei que fiz um gol. Aí, Betinho (que mais tarde tornou-se preparador físico e auxiliar de vários técnicos, entre eles Ferdinando Teixeira), que jogava no time principal, me avisou que o técnico - acho que se chamava Omena, algo assim, era um cara do Rio de Janeiro - iria me convocar para a equipe de profissionais...”. Dito e feito. “O time tinha jogadores como Lambari, Marcos Pintado, Jonas, Zé Augusto, Carlão...”
... e então fez-se a luz
Entre 1977 e 1978, foi aprovado no vestibular para Educação Física na UFRN. A história se repetiu: os horários das atividades acadêmicas e dos treinos passaram a se mostrar incompatíveis. Havia alguma alternativa? De repente - digamos - fez-se a luz. “Lambari me chamou para jogar no Cosern, ele já estava lá, e também Ranilson Cristino”.
Só tinha “menino bonzinho”! “Bastos (goleiro), Wilde, Sidão, Babal, Itamar; Arandir, Hélcio e eu atuando na meia esquerda; Zezé, Maia e Burunga (Ramos)! Esse era o time”. E aqui, um fato curioso - mal chegou, um atleta do time juvenil virou bicho e saiu chutando tudo pela frente. “Era Edmo. Ele era cria do clube, e estava certo que iria jogar. Só que quando eu entrei, ele ficou de fora... vi a confusão, mas eu nem fazia ideia que era por conta da minha presença!”
Passou uma temporada, precisamente o ano de 1978. No ano seguinte, estava de volta ao Alecrim - “O técnico era Medeiros. O time? Alberi, Edmo, Ticão, Walter Cardoso, Nilson Beckenbauer, Gilson Lopes, Gonzaguinha, Batista (goleiro), Manoel, Pepé, Abel, Betinho, Uirandé, Wilton... e fomos campeões da Taça Cidade do Natal”. Só que, assim que começou o Estadual, deu na cabeça dos dirigentes de trocar o técnico - assumiu Armando Viana. Cacau começou a discutir com Armando e questionar a respeito de aspectos da preparação física, afinal estava estudando o assunto (e já dava seus passos trabalhando em alguns colégios da cidade)... e perdeu espaço no time. De quebra, o joelho direito começou a conspirar contra seu lado atleta. Pendurou as chuteiras.
Surge o preparador físico
Naquele momento, nascia o Cacau preparador físico. “Ainda em 1979 surgiu uma oportunidade de estágio nos juvenis do ABC. Fui a convite de Reginaldo Lins, que havia assumido o comando da equipe; e com a aprovação de Ferdinando (Teixeira, de quem havia sido aluno)”.
Em 1980, Ferdinando saiu do ABC. Servílio de Jesus assumiu como técnico. “Eu e Reginaldo fomos chamados para assumir a preparação física”. Pronto, não havia mais dúvidas para Cacau - “Foi uma decisão acertada. Entre uma interrogação como atleta e uma perspectiva na profissão de preparador físico, fiquei com a segunda opção, apesar da pouca idade”. Um ponto favorável era que, nesse período, Cacau e Reginaldo tinham todo o aval de Servílio, e ao lado do médico Eriberto Rocha organizaram toda a preparação física do clube. No ano seguinte, Reginaldo saiu do ABC. “Fiquei sozinho, até 1987”.
Não se mexe em time que está ganhando
Aqui, mais fatos curiosos. Calcula-se que o ABC teria quebrado a sequência de títulos do América ainda na “raiz”, antes dos rubros se tornarem tetracampeões, não fosse um troca-troca danado de técnicos... “Em 1980, o ABC venceu o primeiro turno, e já estava para decidir o o segundo quando a diretoria resolveu trocar o treinador, achavam que os placares eram pequenos, 1 a zero, 2 a zero...’’ - e trocaram mesmo - ‘‘Perdemos o segundo turno para o América... na melhor de três (decisão do campeonato), vencemos um jogo e empatamos dois, mas no fim perdemos nos pênaltis... e o América foi bicampeão”. Em 1981, o técnico já era Erandyr Montenegro, que havia se destacado à frente do Baraúnas. “Vencemos a Taça Cidade do Natal. No meio do primeiro turno, trocaram o técnico de novo” - e o América sagrou-se tricampeão. Em 1982, o técnico já era Danilo Alvim, “o ’Príncipe da Copa de 1950’, eu digo e ninguém acredita! Tive a felicidade de trabalhar com ele” - mas o ABC teve uma campanha desastrosa, e o América foi tetra.
A “zica” só saiu em 1983. “Havia uma nova presidência no ABC, com Sebastião Medeiros, Rui Barbosa e outros. Erandyr voltou a ser o técnico, e aí se montou um dos melhores times da história do ABC - “A base era Lulinha, Alexandre Cearense, Joel Celestino, Alexandre Mineiro, Dudé; Nicácio, Marinho Apolônio, Dedé de Dora; Curió, Silva e Djalminha (Reinaldo). E ainda haviam Alberi, Noé Soares... e alguns garotos que faziam parte do grupo” - uma turma escolhida a dedo, como o próprio Rui Barbosa contou nesta mesma seção há algum tempo. “Três meses de laboratório. No fim fomos campeões, só perdemos um jogo para o América. O resto eram placares de 3 a zero, 4 a 1, 5 a 2...” No ano seguinte, clube foi bi, sob comando de Ferdinando. De 1985 a 1987, depois de alguns entreveros, ficou atuando nas bases - ‘‘e depois pedi para sair’’.
Outros rumos
No comecinho de 1988 quase foi ao América - ‘‘para um projeto para as bases, através de Jussier Santos’’. Mas as conversas não seguiram adiante. No fim do ano, iniciou a Escolinha de Futebol da AABB, onde ficou até o ano passado. ‘‘Vi muitos talentos surgirem ali, como Renatinho, que foi para o Náutico depois de passar pelo São Gonçalo, Alecrim e América; Antônio (hoje Neto Potiguar), que junto com Maurício Maeterlinck foi para o Bahia; Jailson, Nêgo, Tiago Carlos e, por último, Rodriguinho, que esteve conosco dos 8 aos 14 anos’’.
Nese meio tempo ainda voltou a trabalhar no ABC, em 1992, com o técnico Servílio, de novo - ‘‘Fomos campeões no primeiro turno. Aí o time trouxe dois jogadores de ‘nome’, as coisas começaram a andar mal e Servílio pediu para sair. Aí tive que assumir o time!’’ - e o fez, de modo ético em relação a Servílio. Depois disso, afastou-se de vez do futebol profissional. Embrenhou-se por outras áreas, andou estudando e ajudou a abrir um setor pioneiro de exercícios físicos aplicados a pacientes cardíacos no Incor Natal, junto com o médico Felipe Guerra. E atualmente? Desde o ano passado é sócio em um centro de treinamento a 15 km de Natal, e tem planos de conquistar algunas aprcerias para criar um centro de formação de atletas de futebol.
Para fnalizar, e a família? Casou-se com Jerusa Caldas, há 29 anos - ‘‘Ela também trabaklha com Educação Física’’. Não deu outra: os filhos se embrenharam na mesma profissão dos pais - ‘‘Eduardo, o mais velho, é formado em Educação Física e Fisiologia; e os gêmeos, Mateus e André, estão estudando Educação Física. Todos seugiram a área por opção’’.
fonte: Diario de Natal Online 25/01/2009