Trombone em brasa na estação Potengi
Paulo Augusto
Colunista do Jornal de Natal (RN)
Eu não queria estar aqui com esta arma na mão, apontada para o quengo de quem não conheço, no alto Ducal, vendo a hora tirar a vida desse empresário. O meu destino era ser star. Mas coisa de pobre é desse jeito: ou nasce torto ou nasce cagado. Azar no nascedouro, trombadas na vida, mastigar o desemprego, uma temporada de cão no inferno. Vou-te-contar! Salve, Panatis!
Eu não devia estar aqui com este ferro. Meu caminho era surfar na Califórnia. Mas houve a baldeação naquela parada. A troca da mala. A farsa da polícia, a droga repentina. A transformação de tudo. Villa-Lobos queria levar a música para todos. O maestro não entregava os pontos. "Minha música é natural, como uma cachoeira". Fala, Guarapes!
Eu não precisava estar aqui com este cano. Meu lugar era no coral, com os alunos do concerto no estádio de São Januário, 40 mil vozes, e a presença de Getúlio Vargas. Embarcar nas Bachianas Brasileiras, a bordo da tocata O Trenzinho do Caipira: ‘Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade e noite a girar’. Fazer com os caras da favela um samba-enredo sinfônico rasga-coração, num coral indígena de cantigas de roda, ao som da bateria marcada por ganzá, tamborim, reco-reco, cuíca, gaita, flauta, clarineta, oboé e fagote. E os gritos de gozo da minha nega. Olá, Cidade Nova!
Não era para eu estar aqui com o trezoitão. Eu tocava trombone. Quase cheguei lá. E o que foi feito de mim? A polícia lá embaixo. Neguinho subindo pelas paredes feito o Homem Aranha para me pegar. A multidão tomando o Grande Ponto. Zequinha toca trombone ganha nome de bandido. Pode ser que exista o Espírito Santo. Era meu pai quem dizia: ‘Ninguém morre na véspera, a hora é a hora’. Podia ter escutado o que o velho dizia. Meu Deus!, mas pra quê!?! Amigos alertavam: ‘O remédio era tirar o cavalo da chuva, ir pregar noutra freguesia’. No Brasil da gente, até a gurizada sabe: nascer é embarcar numa canoa furada. Câmbio, Cidade da Esperança!
Eu não devia estar aqui para apagar esse pinta. Tudo me lembra Fernando Dutra Pinto, o camaradinha paulistano morto aos 22 anos, numa parada desse tipo com a filha de Sílvio Santos, Patrícia Abravanel. Mas ali ele foi um deus. Ali ele parou o país. Ali ele virou herói. Nas paradas de cá é diferente tudo. Aqui a seca é mais seca. É mesquinharia se falar em juventude. Para nós, o sonho acabou. Sem papo. Viva, Felipe Camarão!
Sem tirar nem pôr, no Brasil virei grupo de risco. Sou dos 49 milhões de 15 a 29 anos que buscam sem encontrar perspectiva de futuro. O que é ser jovem num país sovina? Não nos contam o que vem pela frente tintim por tintim. Orgulha-se de exportar urnas eletrônicas, tem pleitos informatizados, mas a gente sabe a cada eleição que vamos dar com os burros n’água. E se lhes avançamos o dedo pelo nariz, revelando-lhes os podres, agem cheios de melindres, os picaretas. Se fazem de sentidos, como se tivéssemos cometido alguma desfeita. Diga aí, Nazaré!
Porca miséria. Passadas as eleições, somem na poeira da estrada, pegando a mesma via que os trouxe às favelas. Vão amarrar cachorro com lingüiça, enquanto nós ficamos ouvindo cantar o galo, sem saber aonde. São os de sempre e a gente não aprende. São mais que velhacos: gradessíssimos tratantes. Num país que ainda separa os que podem e os que não podem usufruir alguns direitos. Somos uns nerds, não sabemos sequer mangar desses vigaristas, que dizer correr com eles da nossa porta. Não entendemos patavina de democracia, nem sabemos como lambiscar nossos direitos. Nem coragem temos para engambelar os coiós, mas ainda assim queremos ser gente. Aleluia, Bom Pastor!
E eu querendo ser ás do trombone. Não sobrou nem a minha vara. Juro que pensei: a coisa vai mudar com a vinda de santa Viviane Senna a Natal. Vê no que deu. Foi ela sair, e tudo desabar. Santa Viviane falou sobre ‘Responsabilidade Social das Empresas no Desenvolvimento’. Veja só, o título é pomposo. Pura ganância de suínos. Agora vejo que este empresário, a quem tenho sob a mira da arma, poderia ter me ajudado. No papo da lei de incentivo à cultura. Nem ele, nem eu. Veja a cultura que sobrou! Latifúndio também na cultura. Meus respeitos, bairro Nordeste!
Enganei-me com o script. Bobeira de pobretão, gente sem pedigree. Acreditei que daria certo. Que a promessa de tocar na banda marcial do Amarante poderia me salvar. Mas tudo me veio claro como um raio na perturbação do Carnatal. Eu seria músico e terminei cordeiro. Engulho só de pensar. Dá náusea lembrar. Agarrar as cordas, que não eram do meu violão, proteger mauricinhos, patricinhas, num carnaval que eu nem podia entrar. Nem na pipoca nem no miolo. À sombra da bunda de Daniela Mercury, tirando comida da boca dos pobres, a preço de ouro alegrando a gurizada chinfra. Quanto a mim e aos chegados do subúrbio, muito longe do palco. Nas fronteiras. Detidos nas cordas. Na porrada da polícia, nos sossega-leões para dar ritmo ao samba. Axé, minhas Quintas!
E lembrar que neguinho governador já levou à falência dois bancos, Bandern e BDRN, a companhia de eletricidade Cosern. Contar os desvios da merenda escolar, do programa do leite, feito pra dar de mamar a quem já tem gado. Da Operação Ouro Negro. Tem nada não, malandragem. A gente vota, na responsa. Manda aí o pichulé que a gente acerta eles, forma um bonde. Seja para presidente, senador, deputado, vereador, o escambau. Pode se achegar, cumpadi, que a gente garante o troco. Arriba, Lagoa Seca!
Mas, o quê fazer? Somos essa massa de otários. Indigentes potiguares dourando a pílula da política, fazendo voar a mosca azul das candidaturas. Número flagrado em pesquisa da Fundação Getúlio Vargas contabilizou, como escória encurralada da população, 47,69% de operadores da mendigagem. Gente boa, que ousa sobreviver, fazendo os sucos possíveis com os limões que a vida lhes deu, sem ocupação ou domicílio certos e sabidos. Os 1,3 milhão de potiguares que vivem alegremente na miséria varonil. Canta, Lagoa Azul!
O Brasil da gente na verdade não existe. Não existe Brasil! Em Nova Cruz, quando eu era pequeno, pensava em ser doutor, ou cantor, ou tocador de trombone. Ajudava meu pai a carregar tijolo na olaria. Foi minha mãe morrer, peguei a estrada de Natal. Essas bandas bonitas da capital. Se vivemos na miséria, pior seria ficar por lá. Quero ganhar salário, comer feijão com arroz, fazer música, dar uma bimbada. Alerta, Pajuçara!
Eis-me aqui com esse berro. Mas eu não precisava estar assim. "Dizem que o que eu faço é arte, mas é a minha salvação na terra", dizia Arthur Bispo do Rosário. Se ele venceu? Está morto. Por que não eu? Vou protagonizar uma fita, o filme da minha vida, com cenas como a caçada a Hélio Gago. O mano Hélio Sabino, 22 anos, do conjunto Amarante, um chegado que morava perto. Diga pessoas falsas. Ah!, hipocrisia, teu lugar é Natal! Políticos podres. Polícia devassa. Justiça canalha. Saúde, Loteamento José Sarney!Já me tiro como um cadáver. Mas que somos nós, os desajustados? Os fora do jogo? Que é a maioria dessa gente que passa por mim nas ruas do bairro, os 49% de indigentes da população, senão uns zumbis comportados? Indo para o cadafalso virar lingüiça? Senão um bando de cadáveres? Sabem que político não mata na bala, na faca ou na porrada. Os representantes do povo não tiram sangue. Ficaria feio. Politicamente incorreto. Mas o que são eles senão vampiros que agem no mesmo diapasão do que vimos no Massacre da Serra Elétrica? Como confiar nos caras, se eles não pagam nem visita. Se ficamos sem ter sequer os sete palmos para dizer que é terra nossa, mesmo vivendo na pindaíba até espichar a canela e cair de boca na terra. Uma cova grande / para teu pouco defunto, / mas estarás mais ancho / que estavas no mundo. Grande Mãe Luíza!
As donas-de-casa, mesmo ardendo de desejos, nas precisões da família, ainda levam a vida a apreciá-los nas tevês, a nutrir um xodó por eles, como quem anda de rabicho, só para depois de votar, cair das nuvens. Triste sina. E eles vão empentelhar. Não vão para o diabo que os carregue! Mas esse é o povo brasileiro, não se emenda nem que a vaca tussa. Era pra votar nos camaradinhas aqui do bairro, não botar azeitona na empada de neguinho catimbeiro que empesteia os becos da favela. Fala, Amarante!
E agora José? Que o bicho pegou? Que o babado complicou? Nossas máfias, a cosa nostra potiguar, as quadrilhas internas, de faturamento domiciliar, grupal, trabalham em sintonia fina com as que desembarcam do exterior, para incrementar a bolsa das drogas. Os jornais andam dizendo: "O Rio Grande do Norte entrou definitivamente na rota internacional do tráfico de cocaína". Deixei de ir pra o Sul Maravilha gravar meu CD pra ficar vivendo essa sangria desatada. Dá pena abandonar a família e ganhar o mundo, feito pau-para-toda-obra. Mas o povo não perde o siso, mesmo encarando os testas-de-ferro, nos confrontos com os coronéis, os picas-grossas, os sabe-com-quem-está-falando. A gente tem nosso sangue-de-barata, zé povinho sem qualificação, mas nóis goza. Salve, Parnamirim!
Delegados confirmam que a cidade virou "trampolim" para o tráfico. Triste fim de Policarpo Quaresma. Depois de Trampolim da Vitória, o trampolim catapulta para a perdição. Ninguém vê neguinho espichado. O visual alegre que dão o verde, o amarelo, o branco e o azul de nossa bandeira, numa composição que contagia corações afora em Copa do Mundo, não é o mesmo do preto marcado pelo luto das mortes de legiões de vidas que partiram e partem. É de não acreditar, diga aí: a cada dez carinhas mortos, sete são vítimas da violência. Nos últimos cinco anos, perto de 60 mil manos perderam a vida em brigas e assaltos. Na ponta do lápis, o número de óbitos equivale ao total de soldados americanos mortos nos dez anos da Guerra do Vietnã. A cada duas horas acontecem 3 homicídios envolvendo jovens nesse Brasil fagueiro. Vida longa, São Gonçalo!
São passos de milhares de sonhadores que continuam a ser bloqueados na morte, num encontro precoce com Deus. Mas isto é Brasil. Terá jeito? Completados 183 anos de vida independente, é um país de bosta, fazendo de conta que ainda tenta encontrar seu destino. Sem querer ver que já está trilhando a sina. Sua estrada segue pro despenhadeiro que abocanhou Telma e Louise, ao ultrapassarem as fronteiras da vidinha boa e pender pro "crime" de se defenderem de seus estupradores, caindo no precipício. Mereciam uma canção. Mas acabou a festa. O cara vai ter seu fim. A polícia me fareja e aponta seus obuses. Não para os vampiros protegidos da sociedade que arruínam a vida. Mas para o cangaceiro músico em que eu me tornei. Um fora-da-lei forçado das galés. Nada além. Não mais Luiz Gonzaga. Acabou Zequinha do Trombone. Nunca mais o rock pauleira de Raul Seixas. Saravá, Extremoz!
Paulo Augusto
Reg. Prof. MTBe 11.126 (DRT/SP)
30.01.06
Puta-Ema Potiguar Fashion
Paulo Augusto
Uni, duni, tê, salamé, minguê. O sorvete é colorê. O escolhido foi você! Rárárá. Ih, aí, cumpade, nada de choro nem vela. Tudo aqui é riso. Manera e sorria. Você é que está sendo filmado. Sai mano! Não vem com essa de São Francisco pra cima de muá! Num tô te pedindo pinico, morô? Saindo, caindo fora. Arregaça! Não quero nem tô precisando de ajuda. Se eu quisesse uma Mãe Benta tava no Projac, contracenando com cavaleiros e almofadinhas na Central Globo de Produção, falou?
Tás com medo das princesinhas de Bambuluá? Rárárá. Tu é mermo um pentelho, podecrê! Tá assombrado com minhas manas? São muitas? Enfeiam ou enfeitam a orla da Erivan França? Arrepiam nos points? Brilham nas praias da moda? Ocuparam Ponta Negra? Tomaram Muriú? Atacam Jacumã? Comandam em Pitangui? Invadiram Maracajaú? Abalam costa da Pipa? Cintilam em Búzios? Chacoalham em Cunhaú? Sitiaram a capital potiguar? Tu é mermo de merda, cafuçu. Achou que estava me botando numa de horror, um horror de Conrad, do grito de Munch, uma fantasia do rock horror show? E eu ganhei. Venci!
Eu não dou bandeira, filhote. Eu sou a bandeira. Sou a puta-ema na bandeira potiguar. Sou produto de exportação. Sem essa de querer que eu volte a circular em favela. Não depois que consegui destravar a língua, matar a charada performática dos gringos. Mostrando meus dotes na vitrine das avenidas. Aguardando o príncipe que chega pelos mares ou nos vôos autorizados. Quer consertar o quê? Por que não bota essa pergunta direta no check-in das companhias aéreas: Vai comer as meninas? Sacudiu / balançou / Coração é só felicidade / Abalou, abalou isso sim é amor de verdade.
Minhas manas também fazem o que querem. Se acharem que têm que dar, dão. Quer fazer 69, ficar de joelhos? Para mim, tudo é bom. Quero que o sucesso venha de qualquer jeito, da classe alta, da média, da baixa. Quero arrumar o meu dinheiro. Come back pro morro não mais. Favela é: no school, no education, no money, no finess, no life.
Toda menina já foi Lolita na vida / Não por amor, mas por desejo de poder / praticar a crueldade e se satisfazer / Sexo fácil, companhia e prazer. Rárárá.
Qual é a tua, camaradinha? Já deixei de faturar na Engenheiro Roberto Freire por tua culpa. Perdi a clientela da praia do Meio fugindo do teu encalço. Num vem aporrinhar cá na zona de litígio. Por aqui é papo internacional. Foi tu que me passou a manha da língua estranja? Que papo é esse de educador? Bem que tu tem cara de é-cu-dá-dô. Vai lecionar pra mulher fudida de bacana, que tá aí matando cachorro a grito, porra! Joga tua chinfra nas dondocas que ficam sem fazer sexo. Caia noutra com sua lorota. Alguma coisa elas têm que fazer pra parar de reclamar do tédio. Se roçam, tocam alguma coisa, mexem, fazem um zumzum. Se sexo não é tudo na vida, mermão, mas pelo menos da merda me tirou. Taí, se Deus inventou coisa melhor, não deixou avisado.
Não sou Amélia pra tu ficar cercando Lourenço e tirando o meu pão. Tu mermo sabe que o Brasil sempre foi visto pelo mundo como um suvenir. Hoje sou eu que tô na vitrine. E só tenho agora mermo pra me fazer, como a Cicarelli e a Bündchen.
Vai se roçar nas ostras, vai tirar engraxate do sufoco, ajudar mãe negra pedinte. Ou vê se faz coisa melhor, se distraia com lacraias classe média, como a Bruna Surfistinha, que é mais coisa pra tu (www.brunasurfistinha.com). Ela claro é diferente de mim, das minhas manas aqui do Morro do Careca. A mana virou febre de internet e aconteceu? Feliz ela. Agora é aguardar que a história chegue para nós. Bão-balalão! Senhor capitão! / Em terras de mouro / morreu seu irmão, / cozido e assado / em um caldeirão, / eu vi uma velha / com um prato na mão, eu dei-lhe um tapa / ela, papo... no chão!
Tu é mermo um bundão, ô fanzoco. Rárárá. Sabe do meu pedigree? Do meu faturamento? Das minhas relações? Não se engane comigo, produto legítimo da Favela do Fio. Soberana das Falanges de Mãe Luíza. Dama Escarlate do Passo da Pátria. Abelha Rainha do Loteamento José Sarney. Prima-dona do Maruim. Eleita Rainha da Banda do Guarapes. Não nasci ontem. Apesar do corpinho indefeso de guria do Bom Pastor, de borralheira do Pitimbu. Porta-voz das filhinhas mimadas do Pajuçara. Vê minha agenda, meus apontamos, que tu cai de quatro. Tô fora de arrumações travecas. Minha clientela é ouro. Reitores, coronéis, juízes, comandantes de batalhões.
Poderosa, sim, meu filho. Se enxergue! Quer o quê? Quem traz divisas para o PIB potiguar? Quem é a isca dos fluxos dos vôos charters estrangeiros? Quem enche de orgulho a burra dos senadores e de verdinhas as estatísticas do turismo potiguar? É bom elucidar de vez, para evitar BOs incômodos. Sou mermo a gostosa, meu canguleiro. A preferida dos políticos e empresários. A alegria de festinhas e convescotes dos capitães da indústria.
Sostô faltar a tu a vista real da minha condição de insumo turístico. Principal matéria-prima de exportação, dando corpo às paisagens luxuriantes de Pipa, Sibaúma, Baía Formosa e Sagi. Contracenando com a beleza estonteante de Pititinga. Rárárá.
Sou também, ô paspalho, uma Cunhã-poranga no capricho. Representante na fôrma de todas as nossas ninfetas indígenas destroçadas feito as bonecas de Igapó, as garotinhas das famílias de Nazaré, as namoradinhas das tribos da Lagoa Azul, a interlocutora das nações aborígines potiguares destruídas pelos portugas dantanho, das macro-etnias despedaçadas pelos invasores de olho azul do passado, como os Kaiowá, Yanomami, Tikuna, Xavante, Kaiapó, Timbira, Tikuna, Macuxi.
Não sou filha, nem irmã, nem amante, nem esposa, nem sequer uma cidadã. Sinta a presença de Anita, o perfume de Alice, criatura de Carroll, nas minhas malucas peripécias agarrada nos pentelhos pelos países das Maravilhas e do Espelho. Na sintonia fina da rede que manda e que pesca, a ninfeta dos vereadores de Natal, a lolita dos deputados potiguares, com o beicinho e o dengue maroto das mimosas de Anchieta Fernandes e os trejeitos das gurias de Polanski.
Tu abre do olho. Ninguém é imaturo no breu de Natal. Rárárá. As pessoas deixam acontecer. Às vezes se perdem um pouco. Mas se acham. Aqui rola Tutti fruti que rima com / Boot boot que rima com / Cut cut vamos gargalhar / Rárárá. Comecei a namorar com 7 anos. A escola existia nos livros da TV. Chupava e dava beijo romântico. A gente precisava viver. Com 11 anos, fumava cigarro, bebia. Agora a realidade é a Melissinha, o perfume Jungle L' Elephant, roupas Herchcovitch, uma faxina básica e toda limpa com panos da Zoomp. Se estou ganhando dinheiro, não estou roubando. Não é tráfico. Tudo está bom. E quem não gosta de sexo? Já sei namorar / Já sei beijar de língua / Agora, só me resta sonhar / Já sei onde ir / Já sei onde ficar / Agora, só me falta sair. A vida é bela. Não aprende quem não quer. A gente aqui é meio mamãe-sabe-tudo. Sempre fomos porta-vozes de nossas desgraças.
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Padre Sátiro: lenda viva de Mossoró
Paulo Augusto
Especial para o Encartes
“Eu vou lhe dizer uma coisa que fere, com o nosso povo: se existem políticos corruptos, infelizmente, nossos eleitores foram educados por esses políticos, por essa política do toma-lá-dá-cá. Infelizmente, a verdade é essa. A culpa é recíproca. Se nós acabássemos com as lideranças nessa linha, automaticamente o povo estaria ao lado dessas lideranças.”
A opinião é do padre Sátiro Cavalcanti Dantas, 77 anos, que em dezembro passado completou 50 anos como capelão da igreja de São Vicente, em Mossoró. Com 43 anos de magistério, dirigindo o Colégio Diocesano desde 1961, foi uma das principais lideranças que esteve à frente da luta para a estadualização da FURRN – Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte, em 1987, transformada na atualidade ma Universidade Estadual (UERN).
Natural do Sítio do Poço das Pedras, em Pau dos Ferros, padre Sátiro é uma verdadeira legenda do ensino e da educação no Rio Grande do Norte. Em visita a Natal, para participar ativamente, como concelebrante da missa de 7º Dia da sua primeira mestra, a professora Cícera Queiroz da Silva, no último dia 11, em companhia do titular da igreja de Nossa Senhora da Apresentação, padre Agnelo Dantas, padre Sátiro concedeu esta entrevista para o ENCARTES, do Jornal de Natal, na qual fala da atualidade e rememora trechos de sua profícua vida de sacerdote e educador.
Padre Sátiro entrou no seminário em 1943, aos 14 anos, em Mossoró, tendo estudado em Fortaleza e Olinda. Concluiu Filosofia no Rio Grande do Sul e Teologia em Roma, pela Universidade Pontifícia Gregoriana. Posteriormente, aprofundou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco, sendo ordenado em 08 de dezembro de 1954, em Roma, onde permaneceu por mais um ano. No retorno a Mossoró, a 29 de novembro de 1955, iria participar ativamente da vida política, educacional e social da Capital do Oeste e do Estado potiguar. Em portaria assinada por dom Gentil Diniz Barreto, assumiu a Capela de São Vicente, em 30 de dezembro daquele ano.
Foi o padre quem primeiro percebeu que a igreja, cuja construção teve início em 1915, época em que o Nordeste enfrentava uma grande seca e a cidade abrigava 12 mil flagelados necessitando de comida e emprego, estava para desabar na década de 50. Providenciou para sensibilizar as autoridades, em especial porque a capela mantém em suas paredes parte da história de Mossoró, como primeira cidade a resistir e vencer uma investida do cangaceiro Lampião e seu bando, no dia 13 de junho de 1927.
“Quando fui designado para assumir as minhas funções em Mossoró, eu fiquei escravo. É a palavra que eu uso. Escravo do Colégio Diocesano Santa Luzia. Eu fiz meu curso de Teologia em Roma. Eu fui para Roma para estudar para ser padre. E vigário. Para trabalhar na Pastoral. Mas quando eu voltei de Roma, no outro dia, o bispo de Mossoró, dom Eliseu Simão Mendes, disse: ‘Você vai secretariar o Colégio Diocesano’. O diretor na época era monsenhor Sales. Aliás, um grande diretor, que começou a fazer as instalações novas do colégio. Porque o colégio velho era no centro da cidade. Mas não comportava mais o alunado. O padre Sales, juntamente com dom Eliseu, fizeram esse colégio. E eu comecei a minha vida nesse colégio. Passei um ano, ainda, e ia todo fim de semana para Areia Branca. Foi o único tempo bom, que eu ia assim visitar Areia Branca. E não tinha asfalto, não. A gente ia numa caminhonete, até chegar em Porto Franco, pegava um barco e ia para Areia Branca de barco. Aí me fixei em Mossoró. Então, o bispo me nomeou capelão da igreja de São Vicente. Mas ela ficou histórica, por causa do 13 de junho de 1927, quando Lampião quis invadir Mossoró. E errou. A principal trincheira de Mossoró estava na torre dessa igrejinha.”
Ele recorda da primeira professora, ao saber do seu passamento, lendo os jornais de Mossoró, e providenciou imediatamente para estar na missa de 7o Dia, a fim de homenageá-la. “Por coincidência, eu li no jornal, pela manhã, sobre a missa de 7º Dia, e tive aquele choque. A gente a chamava de Cícera Florêncio. Foi a minha primeira professora primária, lá em Pau dos Ferros. E por sinal, professora do ministro José Dantas, meu irmão, também. Ela tinha um costume de dar aos alunos mais aplicados uma imagem de São Pedro. Eu guardei essa imagenzinha, uma estampa de São Pedro. E a escola era uma escolinha particular, não tinha nome de escola. A gente chamava de aula particular. E eu fui alfabetizado por ela. Era a Carta de ABC. As primeiras letras do ministro José Dantas e eu, nós aprendemos com dona Cícera. Éramos uns 10 ou 15 alunos, e aí tinha aquela rodada. E aí com o tempo, todos os sábados tinha a tal da sabatina. A sabatina era a palmatória.”
‘Estamos criando uma nova classe de analfabetos’
Padre Sátiro elogia os métodos e a rotina educacional do período, em razão da alta qualidade do ensino que então se oferecia na escola pública, quando ele ingressou como aluno.
“Feita a alfabetização, eu entrei no Grupo Escolar Joaquim Correia. Esse grupo foi a terceira escola pública do RN. A primeira foi em Natal, a segunda em Mossoró e a terceira em Pau dos Ferros. Fundada pelo político Joaquim Correia, que foi deputado sete vezes por aquela região de Pau dos Ferros (Alto Oeste). O grupo escolar hoje tem o nome de Centro Cultural Joaquim Correia. A escolinha dela chamava-se Isolada. Não era nem isolada. Era particular mesmo. A gente ia para desarnar. Era o termo que se usava. Era alfabetizar, porque, de certa maneira, a escola pública não alfabetizava. A gente chegava já com uma idade “x”. alfabetizava e ficava dando o que a gente chama hoje de aulas particulares de reforço para aqueles mais adiantados. Mas o ministro José Dantas e eu, não. A gente foi o beabá. O beabá como a gente chamava a Carta do ABC.”
Ele recorda dos avanços e dos progressos da cidade e da região, numa época em que as dificuldades se avolumavam.
“Primeiro eu vou dizer para você a minha confissão de uma tese. O grupo que fundou a universidade de Mossoró (UERN), liderado por João Batista Cascudo, o nosso sonho era dar uma vida nova política a Mossoró. Foi um fracasso. A universidade não veio libertar Mossoró. Pelo contrário. Veio fortificar o sistema político dominante, que ainda está dominando pelos Rosados. E ainda via dominar muito tempo. Ninguém tem a esperança. E agora é Rosado 1, Rosado 2, Rosado 3. eles trabalham bem. Querem muito bem a Mossoró. Eles trabalham muito por Mossoró. A política dos Rosados é em torno de Mossoró. Quando eu completei 25 anos de sacerdócio, como eu não sou de festa, gosto de ajudar meus amigos, os parentes, as pessoas que precisam de mim, principalmente para o lado de estudo. Ninguém vai ao Colégio Diocesano pedir qualquer coisa, ou pedir para estudar, para eu bater as portas. Então, nos meus 25 anos de padre, eu fundei essa escola, já com pretensões altas, com o nome de Fundação Sócio-Educativa, porque com a fundação a gente podia unir outras unidades. E uma escola primária. Nós temos 1.200 alunos nessa escola. Todos pobres. Estudam de graça. Temos a Rádio FM Educativa Santa Clara, que é uma rádio educativa. Temos uma banda de música para meninos pobres, incentivamos o esporte. Essa parte, eu vou dizer a palavra própria, assistencialista. Realmente, a não ser a escola.”
Com efeito, a ele se deve a fundação de várias unidades escolares mossoroenses, como o Ginásio Centenário de Mossoró, a Escola 13 de Junho e a Universidade Infantil de Mossoró. Criou, igualmente, a Fundação Sócio-Educativa do Rio Grande do Norte (Funsern), um marco de seus 25 anos de sacerdório e uma prova de seu inigualável altruísmo em prol da contribuição para o desenvolvimento sócio-educativo do Estado. Um home permanente preocupado com o crescimento da região e do progresso estadual, não poderia de alertar para os entraves que, acredita, ainda emperram o avanço da população em busca de melhores dias.
“Nosso povo é pacífico, não é violento. E com uma boa liderança, ele tem coragem de enfrentar situações difíceis. Não com armas. Ele já demonstrou: nosso povo, com lideranças planejadas, com coisas eficientes para o povo, ele acredita e colabora de uma maneira admirável. Um exemplo temos na Pastoral da Criança, que é uma pastoral da Igreja. Que bem essa Pastoral da Criança não faz? Diminuiu a mortalidade infantil, com o sorinho caseiro, são pequenas coisinhas. Se nós pegássemos um presidente que tivesse aquela idéia fixa, mais que fixa, pré-fixa, como Juscelino Kubitscheck, que queria fazer Brasília e fez, arrumou meios. Se nós pegássemos um presidente que quisesse fazer a Brasília do Brasil, a educação, nós iríamos resolver esse problema em cinco anos, assim como Kubitscheck resolveu Brasília em cinco anos, nós também resolveríamos os problema básico da nação, que é educação. Sem esta, não adianta. Nós estamos aí importando. O Brasil cresceu, ninguém pode negar, mas nós estamos criando uma nova classe de analfabetos, que é o analfabeto da informática. Será o excluído total. E cada vez mais vai excluindo. É aquela frase de Pio XII, você veja que Pio XII já dizia: “os mais ricos se tornam mais ricos e os pobres aumentando cada vez mais.”
Sobre o pagamento da dívida ao FMI, autorizada pelo presidente Lula, em detrimento de outros investimentos no país, padre Sátiro comenta, fazendo alusões à situação de penúria pela qual passa a população.
“Um dia desses eu disse aos meus alunos: ‘Olha, eu vou dar uma comparação para vocês. O Brasil está pagando a sua dívida com o FMI. Oh, coisa bonita. Vou dar um exemplo para vocês e vocês vão entender o que é isto: é um pai de família chegar na hora do almoço, e mostra para o filho uma gaveta cheia de dinheiro. E o menino diz: ‘Papai, e o almoço?’ E ele diz: ‘Não tem almoço, não, meu filho, esse dinheiro é para eu pagar as minhas dívidas’.”
20/01/06