Natal se rende a JK
Um Juscelino Kubitschek espirituoso, ‘‘pé-de-valsa’’ e cobiçado pelas garotas natalenses, presentes na festa do Aero Clube, em 1962, data da última das quatro visitas do ex-presidente em Natal, são algumas das lembranças guardadas na memória de personagens que acompanharam JK em solo potiguar. Em todas elas, inclusive em outras quatro em que visitou os interiores do Estado, ele foi aclamado por multidões. Mesmo Aluízio Alves, deputado federal pela UDN, partido adversário ao PSD de Juscelino, afirmam autoridades da época, se rendeu à popularidade do presidente ‘‘bossa nova’’, como viria a ser conhecido e se candidatou ao governo do estado com o apoio do PSD.
As quatro visitas em Natal se deram nos anos de 1955 (por duas vezes), 1959 e 1962. Foram momentos distintos da vida política de JK. Na segunda estadia em Natal, em 6 de agosto de 1955, Juscelino foi a Santa Cruz, a convite do deputado e presidente do PSD, Theodorico Bezerra, para assistir uma vaquejada pela primeira vez. Os bois magros e fracos receberam panos com a sigla da UDN e eram facilmente derrubados pelos vaqueiros. Já os bois fortes tinham a sigla do PSD ou o nome de Juscelino. Nenhum vaqueiro conseguiu ou atreveu-se derrubá-los, segundo lembra o filho de Theodorico Bezerra, Kléber Bezerra, 72.
Em 1959, já presidente, Juscelino chega pela terceira vez em Natal. Dessa vez, para o encerramento do II Encontro de Bispos do Nordeste, para discutir problemas da região. Instrutor da Polícia do Exército e um dos participantes da segurança de JK em Natal, o aposentado Francisco Ribeiro, 78, lembra de discurso inflamado no Teatro Alberto Maranhão, de um ‘‘padre muito popular que lutava pelas coisas do Nordeste e que conseguiu na hora seu pedido, junto ao presidente’’. A reivindicação, lembra, causou grande repercussão. O ‘‘padre’’ em questão era o arcebispo emérito do Rio de Janeiro, Dom Helder Câmara. Em seu discurso, ele sugeriu a criação de um órgão para tratar dos problemas do Nordeste. Estava lançado, ali, o embrião para criação da Superintendência para Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
A data da última visita de JK em Natal deixou boas impressões em Juscelino. Em 1º de setembro de 1962 ele havia terminado seu mandato, mas já se encontrava em campanha para eleição em 1965. A indicação de seu nome como candidato pelo PSD à presidência, segundo Kléber Bezerra, foi homologada após a expressiva votação do Diretório potiguar. ‘‘Papai foi quem conseguiu levar maior número de votos pra Juscelino no Brasil’’, disse. A opinião do jornalista Ticiano Duarte, 76, é a mesma: ‘‘Juscelino venceu pela votação do Diretório Regional daqui, apesar da sucessão estadual ter sido vencida por Dinarte Mariz, da UDN’’.
Além da ajuda dos potiguares para nomeação de JK como candidato do PSD à presidência, Juscelino também guarda outras lembranças das terras de Poti. Após discurso em palanque montado no Grande Ponto, Juscelino curtiu a noite natalense em festa no Aero Clube, chamada ‘‘Uma Noite Japonesa’’. ‘‘As moças, vestidas à caráter, enfileiravam-se para dançar com Juscelino. Lembro que ele disse: ‘Quero dançar com essa mocinha bonita’. Ele era um pé-de-valsa, muito elegante e simpático’’, recorda Ticiano. Segundo ele, JK ‘‘não parou um minuto de dançar’’.
Francisco Ribeiro, membro da organização de segurança de JK, lembra de um samba miudinho dançado por Juscelino, ao som de José Martins e sua Orquestra. O presidente bossa nova comentou com a organizadora da festa, colunista de O Poti, Kathia Suely: ‘‘Um evento de tal suntuosidade, montada em tão lindo painel seria digno também de ser apresentado nos grandes centros do país’’, disse JK.
Memórias de Raimundo Nonato
Com um aperto de mão firme e gestos comedidos, o advogado e professor aposentado da UFRN Raimundo Nonato Fernandes recebe a reportagem do Diário de Natal em seu escritório no Edifício 21 de Março, no Centro. O objetivo é falar um pouco da trajetória profissional de um dos homens mais respeitados no estado. Seus 88 anos não escondem uma vida baseada em dedicação ao trabalho e à família. Até hoje ele vai para o escritório, onde atende a ‘‘antigos clientes’’, além de claro, acompanhar de perto o trabalho do neto, João Cláudio, que também é advogado. ‘‘Venho muito aqui para encher o tempo’’, diz modestamente.
Raimundo Nonato Fernandes dá nome ao Presídio Provisório de Natal, que fica na Zona Norte. A homenagem foi feita, segundo ele, pelo desembargador Ítalo Pinheiro. Mas, no alto dos 88 anos, a sinceridade é inerente às suas opiniões: ‘‘Sinceramente, não gostaria de ter meu nome num presídio. Minha mulher, então, ficou contrariadíssima. Muitos amigos que passavam por lá, e viam meu nome, se assustavam. Acho que fui escolhido por ser um dos advogados mais antigos. Mas isso não honra ninguém’’.
Para o advogado que tem como predileção de trabalho o direito administrativo, o que honra mesmo um homem é um ‘‘comportamento sóbrio’’. ‘‘São qualidades normais de um cidadão bem-criado, no ponto de vista da educação e da moralidade’’, revela.
Antes de se tornar um dos mais promissores assessores jurídicos do Governo do Estado, sob o cargo de Consultor Geral, tendo trabalhado para governadores como Dinarte Mariz, Tarcísio Maia, Walfredo Gurgel e Aluísio Alves, Raimundo Nonato Fernandes foi também um advogado criminalista, no início de sua carreira. ‘‘Advoguei no Júri por muito tempo. Esse tipo de atividade atrai o profissional que está começando porque o exibe, as atividades são mais ostensivas. Na verdade, era uma diversão pra mim. Nessa época, o Júri era na Prefeitura’’, relembra e insiste numa posição: ‘‘Nunca defendi ladrão’’. Ele lembra de um caso famoso na época, no qual ele foi o advogado de defesa: ‘‘Foi um caso de grande repercussão porque se tratavam de pessoas da sociedade (sem revelar os nomes). Ele era um alto comerciante e descobriu que a mulher andava tendo uns encontros com outro homem. Chegou a flagrar um deles e nessa ocasião, matou o cidadão. Foi absolvido por defesa da honra’’. Sobre o que ele pensa atualmente acerca dos direitos do homem e da mulher, se ambos devem ser postos numa posição igualitária e sobre as diferenças em épocas mais distantes ele é categórico: ‘‘É um absurdo o pensamento de que o homem pode fazer tudo e a mulher não. No ponto de vista do casamento, a fidelidade deve ser recíproca’’.
Depois da experiência como advogado criminalista, Raimundo Nonato Fernandes descobriu sua ‘‘paixão’’ na advocacia. O Direito Administrativo, inclusive lecionou essa disciplina na Faculdade de Direito, entre outras cadeiras. ‘‘Só na prática é que a gente descobre nossas preferências. Depois que passei para o Direito Administrativo, defendi muitas questões contra o Poder Público’’.
Diario de natal 13 de Fevereiro de 2006.