RAIMUNDA QUEIROZ DA SILVA
Raimunda Queiroz nasceu no dia 31 de março de 1914. Estudou o primário no Grupo Escolar “Joaquim Correia”.
Quando o pai faleceu, em 1929, aos 15 anos, passou a exercer as funções de professora particular, na casa de Doninha de João de Aqüino. Com o tempo, foi convidada pelo prefeito a ensinar no Grupo de Pau dos Ferros, ganhando um razoável ordenado.
Conheceu José Luís da Silva e começou a namorá-lo. Ele era guarda de higiene, o que corresponde hoje aos funcionários da Fundação Nacional de Saúde (ex-Sucam) que combatem o mosquito da dengue, e, devido ao pouco entendimento da importância do seu trabalho para a saúde pública, muitos mostravam-se apreensivos com o casamento. Mesmo com o namorado ganhando um salário invejável. Casaram-se, contudo, em 5 de fevereiro de 1993, em Pau dos Ferros, e formaram um harmonioso casal.
Do matrimônio, nasceram nove filhos, dos quais seis falecidos: cinco ainda pequenos e Maria Auxiliadora, aos 30 anos, no Rio de Janeiro. De seus filhos, três vivem em Natal, Francisco de Assis (Cizinho) e Aécio, em Natal, e Canindé, em Mossoró.
Raimunda faleceu durante aquele que seria o último parto, feito pelo médico de Mossoró, Dr. João Marcelino, que não conseguiu controlar a grande hemorragia que se deu após o nascimento. A criança faleceria também, uma hora depois, sendo antes levada para ser batizada pela tia Cícera Queiroz. Raimunda foi enterrada juntamente com seu filho, no mesmo túmulo.
Raimunda Queiroz deixou um legado de bondade e transmitiu aos seus alunos mais do que saber: os seus valores, que fazem recordar com saudade dos tempos em que os valores materiais não suplantavam os valores morais.
Formava uma família extremamente pobre, sobrevivendo com dificuldade, mas isso jamais afetou seu sentimento de fraternidade. Seus filhos orgulham-se de ser possuidores de uma sensibilidade profunda, graças aos ensinamentos que receberam em casa, através de sua mãe e das suas tias que deram continuidade à sua formação.
Raimunda faleceu em 23 de novembro de 1946, aos 32 anos.
No documento “Notas sobre a Agência de Estatística de Pau dos Ferros”, o autor, Francisco Jácome Barreto, discorrendo sobre os agentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cujas agências eram, de início, dependentes do governo municipal, depois estadual, só posteriormente passando ao âmbito federal, diretamente subordinadas à Presidência da República, escreve sobre Raimunda Queiroz:
“Primeira Agente, de 1936 até 31 de maio de 1945. Pioneira da causa estatística no município. Dedicada e interessada pelos serviços, enfrentou a indiferença e desconfiança do povo pela estatística, que muitos acreditavam ser obra do governo com objetivo especial para aumentar os impostos e os mais ignorantes até pensavam que o governo queria tomar o que eles possuíam. Com paciência e calma, ela tudo contornava. Funcionava a repartição na Prefeitura Municipal, quase sem móveis e com pouquíssimo material de expediente. No recenseamento de 1940, D. Raimunda Queiroz trabalhou incessantemente como secretária da Delegacia Municipal, cujo delegado era o Dr. Mário Marcelino de Oliveira.”
“Compareceu a dois estágios em Natal, revelando bom aproveitamento. Faleceu a 23 de novembro de 1946, exercendo as funções de professora particular na cidade onde mantinha uma escola com grande matrícula e apreciável freqüência. A sua exoneração do serviço atendeu a uma medida de caráter geral do IBGE, sendo por ela atingidas muitas de suas colegas daqueles tempos que emprestavam o seu concurso à estatística.”
JOSÉ LUÍS DA SILVA
José Luís da Silva nasceu em 15 de outubro de 1904. É o exemplo de um cidadão oriundo do Agreste potiguar que acabou criando raízes na capital do Alto Oeste, Pau dos Ferros.
Zé Luís, como era conhecido, moreno, alto, sem meias palavras, experimentou as mais variadas atividades para prover o sustento da família.
Sua principal característica era a sisudez. Embora de “cara amarrada”, nunca desprezava uma prosa com os amigos. Saía para o almoço ou o jantar e demorava mais de uma hora para chegar em casa, tantas eram as conversas que mantinha com quem encontrasse.
Matador de mosquito, classificador de algodão, vendedor de tecidos, bodegueiro, tantas foram suas ocupações, que terminou muito conhecido na cidade. Vendia “fiado” a todo mundo, desde uma dose de aguardente até farinha e arroz, única maneira de melhorar seu faturamento, já que dinheiro em espécie entre os trabalhadores era um artigo também muito raro. Em tom de humor, criou a expressão “bando de satanás” ao ver os fregueses acostumados a comprar “fiado”.
Em 1993, casa-se com Raimunda Queiroz, com quem teve nove filhos.
Viúvo durante alguns anos, seus filhos foram criados por Enedina, juntamente com seu filho adotivo, Bubusto, mais conhecido como Boré.
Casou-se em segundas núpcias com Cirila do Rêgo, tendo com ela mais três filhos: Diassis, Júnior e Fátima.
Zé Luís, mesmo passando por dificuldades, jamais negligenciou a educação dos filhos, mandando-os para outras cidades, onde pudessem concluir seus estudos. Como lutador, entendeu que somente com estudos seus filhos poderiam alçar degraus mais altos na vida. Para isso, contou com a ajuda de José Florêncio.
Faleceu a 25 de dezembro de 1962.
TIA RAIMUNDA
Antônio Augusto (*)
Era uma mulher que tinha um modo especial para falar. Tinha um porte de realeza e, quando entrava na sala de aula, o silêncio era cortado pela sua voz: “Bom dia! Sentai-vos”. Deste modo, ela liderava e transmitia os conhecimentos da matéria e o amor fraternal, pois todos a admiravam. Naquele seu modo de andar e ver à sua volta os que passavam, ela sentiu que algo estranho invadia a sua mente. Aquele rapaz magro e sorridente estava entrando em sua vida. José Luiz veio para Pau dos Ferros em conseqüência do clima. Acontecia em Pau dos Ferros uma invernada forte, transformando a terra seca e dura numa terra fértil, que tudo dava. Foi nesta época que a doença tomou conta da cidade. Os mosquitos e insetos nocivos estavam se alastrando, deixando os curandeiros em pânico. A prefeitura pauferrense recorreu ao serviço de saúde do estado. O Serviço de Endemias Rurais trouxe uma equipe para pesquisa. Foi aí que apareceu, para combater a praga, o sr. José Luiz que, com sua bandeira, marcava a sua presença. Com o grande conhecimento que possuía, ele salvou e purificou as águas que corriam para os potes e cacimbas - “cisternas”. Com esta ação benéfica e sua capacidade de cativar as pessoas, José Luiz fez tia Raimunda vibrar, pois seu coração já era dele. Os pretendentes da casta pauferrense ficaram umas “feras”. Foi daí que seu casamento aconteceu mais rápido. Tia Raimunda e o sr. José Luiz se casaram e foram felizes.
(*) Antônio Augusto, filho de José Augusto e Maria Souza de Oliveira, enteado de Cícera Queiroz.
CIRILA CORREIA DO RÊGO E SILVA -
2º Casamento de José Luiz da Silva
Cirila era uma mulher marcante, de forte personalidade. Sisuda e lutadora, enfrentou muitas dificuldades. De família pobre, era perseverante e tinha na disciplina o seu traço forte.
Casada com José Luís da Silva, com quem teria três filhos - Diassis, Júnior e Fátima -, foi a chefe de uma família numerosa por também criar os filhos do primeiro casamento de José Luís com Raimunda Queiroz: Cizinho, Canindé, Auxiliadora e Aécio.
Já viúva, mudou-se para Natal a fim de melhor educar os filhos, persistindo, contudo, e superando todas as dificuldades para o sustento da família. Costumava melhorar o orçamento doméstico costurando ou cobrindo botões para uma vasta clientela. Sem nunca desanimar, formou todos os filhos. Uma de suas lições de vida é a de se viver como se pode, sem tentar aparentar mais do que realmente se é.
Herdou de seus pais uma disciplina rígida, na qual os filhos não discutiam com os pais, principalmente os de menor idade.
Foi muito ligada às irmãs de Raimunda Queiroz, Francisca, Ubaldina e Cícera.
Ao falecer, já tinha os filhos casados, formados e com profissão definida.
Seus filhos ressaltam sempre o clima de extrema amizade que os une, resultando num espírito de solidariedade profunda.
MARIA AUXILIADORA DE QUEIROZ E SILVA (DÔRA)
Francisco de Assis Queiroz Silva
(CIZINHO)
Este era o seu nome de solteira. Ao casar-se, tornou-se Maria Auxiliadora Silva dos Passos Miranda.
Dôra era casada com o advogado carioca Ricardo Penna dos Passos Miranda. Deste casamento nasceram Victor e Fábio.
Voltemos um pouco no tempo, até Pau dos Ferros, onde morava toda a família.
Dôra ficou orfã com apenas um ano de idade. A família foi então criada pelo pai, Zé Luís, sob as ordens de Enedina, que já morava conosco. Até o segundo casamento de Zé Luís, com Cirila, fomos criados Por Enedina e as tias.
Anos depois, ao retornar a Pau dos Ferros, por ocasião do falecimento de papai, pude então conviver um pouco com aquela menina frágil, mirrada, nos seus 12/13 anos.
Certa noite, deitado numa rede, eu ouvi de Dôra, que balançava a rede, um lamento. Ela dizia: “Pois é, agora eu não sei o que vai ser da minha vida...” Ao ouvi-la, percebi a intenção de ir morar comigo. Confesso que até então eu não havia pensado nisso . Ao ser perguntada se gostaria de morar comigo, rapidamente respondeu: “Quero!” Quinze dias depois ela desembarca em Santos, onde morávamos, para começar uma nova vida. Eu ganhava uma irmã para educar como filha.
Dôra foi uma agradável surpresa. Meiga, sensível, entendia-se perfeitamente com a minha esposa, Neuza, e logo iniciou seus estudos. Tempos depois, já no Rio, ingressaria na Faculdade de Filosofia, especializando-se em Letras. No decorrer do curso, certa noite, durante o jantar, Dôra me pergunta se eu poderia pagar o curso de Direito, pois também desejava se formar, tornar-se advogada. Ponderei que ela deveria terminar primeiramente Filosofia, mas ela acabou me convencendo de que aguentaria fazer os dois cursos ao mesmo tempo. Foi assim que se tornou doutora duplamente.
Na Faculdade Nacional de Filosofia, teve atuação política, fazendo parte da “Juventude Rebelde” de então. Naquela faculdade funcionava um núcleo de inconformados jovens. A meu pedido, foi se afastando e cuidando mais de sua atividade profissional.
Em Santos, Dôra tinha a companhia inseparável de mais duas primas: Gracinha e Olímpia. Formavam um trio muito unido, estavam sempre juntas, vibravam e amavam o mesmo ídolo, o cantor Roni Von.
Dôra, apesar de viver pouco tempo, tinha traços que a identificavam muito com a família. Talvez por conviver também com Tia Ubaldina, herdou dela uma sensibilidade aguda; procurava sempre resolver os problemas dos outros, quaisquer que fossem.
Tive a sorte de participar de sua formação, orientando-a diariamente.
No dia do seu falecimento, quis o destino que eu, já morando em Natal, estivesse no Rio e participasse ativamente daqueles momentos difíceis.
Guardo dela uma imagem de uma pessoa absolutamente identificada com os meus ideais e sentimentos familiares. Perdia eu mais que uma irmã, uma filha... Dôra era a própria imagem de sua mãe e de suas tias. Os filhos Victor e Fábio se parecem muito com ela. É a continuação da vida, que se renova.
JOSÉ LUÍS DA SILVA E CIRILA CORREIA DO RÊGO E SILVA
FILHOS
Francisca de Assis Silva Rosado Holanda
- Carlos Antônio Rosado de Holanda
Maria de Fátima Correia Silva
- Francisco Vanderley Nóbrega Filho
José Luís da Silva Júnior
- Verônica Borges Burgos da Silva
NETOS
Francisca de Assis Silva Rosado Holanda e Carlos Antônio Rosado de Holanda
- Adriano Correia Rosado de Holanda
- Mariana Correia Rosado de Holanda
Maria de Fátima Correia Silva e Francisco Vanderley Nóbrega Filho
- Gabriel Correia Vanderley
- Rodrigo Correia Vanderley
José Luís da Silva Júnior e Verônica Borges Burgos da Silva
- Rafael Burgos da Silva
- Daniel Burgos da Silva
FOTOS
Raimunda Queiroz da Silva
José Luiz da Silva
Cirila e José Luís com os filhos: (esq. p/ dir), Francisco Canindé, Francisco Aécio, Maria Auxiliadora (Dôra), José Luís, Cirila Correia, Francisca Diassis, Maria de Fátima e José Luís da Silva (Júnior)
José Luiz da Silva e Raimunda Queiroz da Silva
Cirila Correia do Rêgo e Silva