O Galo Ano XI- Nº 7 - Agosto, 1999
Natal- RN Fundação José Augusto
Departamento Estadual de Imprensa
V Encontro de Cultura Popular
Julião- O Canto do Sertão
(...) Por que será que eu te quero tanto
Por que será que eu vivo a te adorar
É minha terra eu amo este recanto
Meu pé-de-serra / Viva meu lugar!
Siri, oh meu Siri / Siri, meu Siridó
Siri, eu fico aqui plantando algodão mocó.
(Siri Siridó)
Elino Julião, cantor e compositor de forró, xotes, marchinhas juninas, boleros, carimbó, xote merengue e outros ritmos, é conhecido nacionalmente e internacionalmente nos seguintes países: Bélgica, Portugal e África (Zâmbia). No entanto, tem suas raízes fincadas no Seridó, particularmente na fazenda "Toco" município de Timbaúba dos Batistas. Foi lá onde ele nasceu em 13 de novembro de1936. A fazenda Toco era propriedade da senhora Lutgard Guerra (irmã do escritor Otto Guerra) a qual, lançando mão de seu ofício de educadora, o ensinou as primeiras letras e o estimulou para a vida. Em sua fazenda, o menino Elino trabalhava como carregador d´água do açude velho, e nesse trajeto, batendo numa lata, brincando aqui e acolá, entre uma sombra e outra de juazeiro, já ensaiava seus primeiros toques musicais.
Filho de tocador de cavaquinho e barbeiro da freguesia-como ele mesmo diz-e Dona Francisca Augusta, uma lavadeira que trabalhava duro para ajudar ao marido criar treze filhos, Elino queria ganhar o mundo. Batendo na lata e não batendo lata, adolescente, já fazia suas apresentações na cidade de Caicó, especialmente, nos famosos bailes de Caicó Esporte Clube que reunia a juventude dourada da época.
Trajetória
Aos doze anos, saiu do Seridó e veio para Natal de carona no caminhão de Artur Dias, comerciante da região. Na capital, foi morar com uma tia no bairro das Quintas. Imediatamente, procurou espaço para sua música. Na Rádio Poti, Genar Wanderlei, finalmente lhe ofereceu uma oportunidade de se apresentar no famoso programa de auditório Domingo Alegre, lá pelos idos da década de 50. Conseguiu espaço e reconhecimento. Na rádio, cantava músicas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e outros. Sob a bêncão do padre Eymard Lérecat Monteiro, amigo da família, retomou os estudos a noite no colégio Marista.
Julião ficou em Natal por dezoito anos. Durante esse período, serviu o exército, mas logo que se libertou das forças armadas voltou para a Rádio Poti, onde conheceu Jackson do Pandeiro. O já famoso Jackson o convidou para o Rio de Janeiro, onde foi morar e trabalhar como cantor, iniciando uma parceria que rendeu grandes frutos musicais e selou uma longa amizade. Como ritmista de Jackson, se apresentou nas rádios, tvs e viajou o Brasil inteiro. Elino confessa que não foi fácil gravar no Rio de Janeiro nos anos 50. "Passei muito tempo para gravar. Naquela época dos auditórios de rádio, a gente cantava mas não gravava. Só gravava quem tinha muita sorte e cantava mais que Vicente Celestino", lembra saudoso do amigo.
Foi na casa de Jackson, que Elino começou a compor suas primeiras músicas. Gravou seu primeiro disco em 1961, na gravadora Chanticlê, que além dele, lançava simultaneamente : Noca do Acordeon, João Silva, Geraldo Nunes, Mineiro e Teixeirinha. Do grupo só Teixeirinha fez um grande sucesso com coração de luto.- O sucesso do colega o desanimou e pensou em desistir da carreira, porém Jackson o estimulou e o levou para a gravadora Phillips, por onde lançava seus discos.
Foi na Philips/Polygram, que gravou seus primeiros sucessos: Puxando Fogo e Xodó do Motorista, que logo se transformaram em verdadeiros hits. Mas antes disso, suas composições já faziam sucesso. Entre elas Rela Bucho, na voz do pernambucano Sebastião do rojão. Em função do sucesso, foi convidado para uma gravadora maior, a CBS, hoje Sony Music, permanecendo por 23 anos.
Ainda no Rio, foi contratado da extinta Rádio Tupi e da rádio Nacional. Nesta última como convidado especial, já que só se apresentavam os cantores contratados pelo governo. Em meio ao sucesso saiu da "cidade maravilhosa" e foi para São Paulo trabalhar com Pedro Sertanejo (pai de Osvaldinho do Acordeon), ficando na terra da garoa por seis anos.
Luiz Gonzaga estreou na TV Cultura o show "Chapéu de couro" e o convidou para trabalhar como ritmista, permanecendo aí por mais três anos. Vale lembrar também que o seridoense morou com o Rei do Baião e seu irmão Zé Gonzaga, conhecido como o príncipe do forró, a quem Julião não se negava a dar uma força. Elino, Jackson, Trio Nordestino e outros do gênero saíram da CBS em 86, quando a gravadora, preferindo apostar nos internacionais Michael Jackson e Júlio Iglesias, alegou que estava em dificuldades.
O trabalho de Elino Julião tem um perfil regionalista muito transparente, que o caracteriza como um "autêntico cantor do nordeste". Ele tem extrema facilidade em compor a respeito das particularidades do seu povo, dos fatos do cotidiano. Um prático. Faz música de ouvido, letra e melodia. O seu forró é considerado genuinamente "Pé -de- Serra" dos melhores. Ele é conhecido como um dos artistas que mais participa das populares coletâneas de música junina, os "Pau- de- sebo".
Nos mais diversificados locais que se acenda uma fogueira, seja no sertão ou nas vilas suburbanas das grandes cidades, o repertório obrigatório ainda é o de Julião, como foi demonstrado no São João deste ano em Natal e interiores. Elino, é um homem, simples. Não é exagero mencionar que carrega na fala e no gesto a pureza e espontaneidade do verdadeiro sertanejo. O falar doce e manso traduz um romantismo que toca o coração, sem usar de maiores prolixidades.
Suas letras revelam também a irreverência e humor do nordestino. O artista não perdeu sua naturalidade, ainda que tenha sido presença constante das famosas rodas do histórico Hotel Glória/ RJ, e muitas vezes escolhido o artista do mês pelas rádios. Produziu 700 músicas, com mais de 40 discos em vinil e quatro CDS e, aos 63 anos ainda tem entusiasmo de sobra para lançar outro trabalho em breve.
Em meados da década de 70, travei conhecimento com o cantor e compositor Elino Julião, através do meu amigo Abdias (oito baixo) de saudosa memória que produzia um disco naquela época. O melhor da música verdadeiramente nordestina.
Sou um admirador, culminando por gravar músicas de sua autoria em disco meu.
Mas, recentemente tive a honra de ser convidado a participar do "Disco Nação Potiguar" (aliás muito Justa), promovida pela Fundação Hélio Galvão e Scriptorim.
Aproveito a oportunidade para desejar ao poeta-cantadô, que numca esgote o talento de fazer coisas bonitas para nós.
Está de volta a Natal há dois anos, matando saudade da "terrinha"e de uma legião de fãs. Em Caicó, no ano passado, durante a comemoração dos 250 anos da Festa de Santana recebeu uma homenagem inusitada. Um grupo de admiradores seus reuniu-se e lançou o fã-clube "Rabo do Jumento", numa alusão ao grande sucesso que ainda hoje embala as farras no mercado, bares, soarês, bairros e programação de rádio daquela cidade. "O rabo do Jumento" foi lançado no meio da feira com grande repercussão na cidade; dando direito inclusive, a carteirinha para sócio, que já foi emitida para diversos cantos do país por solicitação de saudosos fãs.
Dos seus maiores sucessos, podemos ressaltar: Na sombra do juazeiro, Festa do Senhor São João, Filho de Gaiamun, O baile do Tancredo, Na unha do Guaxinim, O guarda, Na minha rede não, São João do caburetê, Rio Grande meu xodó, Budega do Espedito, Ta faltando Paletó, O Pai de Gabriela, Tamarineira, Maria Homem, Pedaço de morena, O chechero e Xeleléu, e outras centenas mais, mas não esquecendo o brega "cofrinho de Amor"(Você é o meu céu/ É minha vida/ Meu peso minha medida/ Meu cofrinho de Amor.."), que segundo Elino, foi a música que mais lhe rendeu dinheiro.
Julião, no entanto, não concorda com a fama de ter ganho muito dinheiro e de o ter perdido nas farras e boêmias, uma aura que cerca os artistas em geral. Ele garante que na época não se ganhava dinheiro. "A gente ganhava vintém", afirma, e diz também que naquele tempo não existiam lugares adequados para a realização de shows. Eles eram feitos no cinema por exemplo. "Se não me falha a memória, a coisa só veio melhorar depois de Elba Ramalho para cá, hoje existe uma estrutura formada para isso, em todo o Brasil".
O artista reforça ainda que seus direitos autorais não são devidamente repassados, ainda que seja sócio da SADEMBRA (Sociedade Administrativa de Direitos de Execução Musical do Brasil) e do ECAD (Escritório Central de Arrecadação de Direitos Autorais), lembrando que o artista não tem outra atividade paralela e vive exclusivamente de música.
Consolidação
A música não gerava renda suficiente para sobreviver no Rio de Janeiro, e dessa forma, o cantor precisava se virar. Uma das alternativas era trabalhar como garimpador de informações, em plena ditadura militar, para a escritora cearense Rachel de Queiroz, que também escrevia para os jornais. Ele também vendia suas composições para outros cantores, mas a autoria era negada.
Foi baterista do cantor e compositor Araken Peixoto (irmão de Cauby Peixoto). Muitos gravaram suas músicas, entre eles, o Luiz Gonzaga e Zé Gonzaga, e o lendário Coronel Ludugero, com quem trabalhou por mais de cinco anos. Elino lamenta profundamente a morte trágica do amigo, que não consegue esquecer. Na seqüência de parcerias temos: Dominguinhos, Genival Lacerda, Jacinto Silva, Inezita Barroso, Marines, Abdias, Anastácia, Cremilda, Zé Milton, Oswaldo Oliveira, Zé Calixto, Pedro Sertanejo, Trio Nordestino e tantos mais de uma lista imensa de grandes nomes da música brasileira.
Jackson do Pandeiro, amigo e protetor, o descreve: "Um exímio músico. Tocava muito bem o piano. Não era teórico, mas dominava qualquer instrumento com extrema perícia". Elino o relembra com saudade, os dois se identificavam na boemia, na nordestinidade, e diz de Jackson: "Era um perfeito malabarista, lamentava não ter pai, sua mãe era cantadora de coco e ele não teve filhos".
O artista relembra também o convívio na TV e Rádio Tupi, Revista Cruzeiro e jornal O Diário da Noite, e diz: "nós formávamos o mesmo espaço, era o conluio com David Nasser, Vicente Celestinoi e sua mulher Gilda de Abreu". O casal levou o autor de grandes sucessos a ser sócio da rigorosa UBC (União Brasileira de compositores). O grupo mais chegado tinha ainda Ataufo Alves, João do Vale, Emilinha Borba, Dolores Duran, Rosil Cavalcante-radialista, cantor, compositor e parceiro de Jackson do Pandeiro. Só para lembrar Cavalcante: Forró do Limoeiro, Cumadre Sebastiana, Um a um, Cabo Tenório. Rosil viria a ser o responsável pelo lançamento nacional de O rabo do jumento. Isso a partir da Rádio Borborema, onde apresentava O forró de Zé Lagoa, programa de maior sucesso em Campina Grande.
Julião é presente, é moderno. Apesar disso, suas canções ficam a margem da programação das FMs, conhecidas por fabricarem paradões americanizados, programas exibidos pelo feirão high- tec da MTV. Também quem vive na superfície da cultura de massa imposta por grandes grupos de comunicação, jamais ouviu falar deste artista, um dos mais criativos e produtivos músicos populares do nosso país.
No entanto, grandes músicos que não se encontram nas habituais paradas montadas nas FMs gravam e regravam Elino, num reconhecimento explícito do seu talento artístico e criador. Entre eles: Xangai, Dominguinhos, Dodô e Osmar, Oswaldinho, Marília Medalha, Tetê Espíndola.
É bom lembrar que entre os artistas que fazem uma releitura do músico, nenhum deles é norte- rio- grandense. Como se o estado andasse na contra-mão da revitalização e resgate cultural hoje em processo em outros estados, inclusive vizinhos nossos. Assim entre nós existe uma enorme lacuna a ser preenchida pelos novos artistas potiguares. A releitura musical é uma alternativa real. Em Pernambuco, Antônio Nóbrega e Mestre Ambrósio revisitam o trabalho daqueles que os antecederam. Mais próximo de nós, temos o lançamento do paraibano Jackson do Pandeiro, por exemplo, que tem participações de Lenine, Paralamas do sucesso, Zeca Baleiro e o Rappa, só para citar alguns que estão no topa das paradas.
E para comemorar a volta de Julião, e reconhecendo a importância e grandiosidade da obra do cantor, a Fundação José Augusto o homenageia no V Encontro de Cultura Popular do Rio Grande do Norte. Este encontro, aliás, já é reconhecido como um dos grandes eventos culturais do país.