
MACAÍBA chamava-se primitivamente Coité, Está situada à margem esquerda do rio Jundiaí e ligada a Natal, por ótima estrada de rodagem. Das maiores e mais importantes cidade do Rio Grande do Norte, conta aproximadamente com vinte mil habitantes. Seu principal comércio, algodão, couros, peles e cereais. O clima quente, sêco e saudável; luz elétrica, ruas largas e limpas. Dispõe de bons edifícios públicos e particulares, diversos logradouros. Imponente é sua Igreja, cuja pedra fundamental foi lançada em 1858, pelo major Fabrício Pedrosa. Merece referência especial o Grupo Escolar “Auta de Souza”, homenagem à grande poetisa negra, filha sempre lembrada de Macaíba. Auta de Souza publicou um único livro, “O HORTO”, que recebeu o prefácio de Olavo Bilac.
Aí nessa terra, aos 11 de janeiro de 1864, nasceu AUGUSTO SEVERO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO, o herói do “PAX”, o Homem que pagou com a Vida – o seu tributo à realização do sonho de Ícaro.
Macaíba não esquece o filho ilustre. E se mais não produz, em sua memória, é porque os recursos do Município são mínimos. Ainda assim, quem visita a cidade vê a Praça Augusto Severo, embelezada pelo obelisco, com seu retrato em bronze e a reprodução do dirigível “PAX”. Foi fundado o Clube Pax para cultuar-lhe o nome. Ali se reúne a mocidade inteligente e idealista dêsse pedaço de terra brasileira. Quem prospere e reafirme humanidade, o pensamento de Pinto de Abreu.
“O coração da Pátria é túmulo digno dos heróis que tombam”.
A casa onde nasceu Augusto Severo já não existe. Era modesta, assombrada, rodeada de árvores. O progresso da cidade exigiu que viesse abaixo a antiga morada.
Os primeiros anos de sua vida passou-os Augusto Severo, despreocupada e alegremente, até se transformar em “o grande romântico, essa figura esplêndida de aristocrata do Norte” (GILBERTO FREYRE). Quando atingiu a idade de educar-se, seus pais, o negociante AMARO BARRETO DE ALBUQUERQUE MARANHÃO, natural de Pernambuco, e D. FELICIANA MARIA DA SILVA DE ALBUQUERQUE MARANHÃO, da Paraíba do Norte, resolveram deixar Macaíba, com destino à capital do Estado. Anos mais tarde, prestava exames no Ginásio Norteriograndense.
Macaíba – a terra boa, quente e saudável – seria, pela tôda a vida afora, grata recordação dos seus tempos de criança.
I I Os Albuquerque Maranhão estavam destinados a dar ao Brasil filhos ilustres. Os fidalgos portuguêses, Jerônimo e Matias de Albuquerque aqui chegaram em 1532. Tomaram parte nas guerras contra os holandeses e franceses. Jerônimo seguiu para o Rio Grande do Norte para o Maranhão, a fim de expulsar os franceses que lá se encontravam. Vencidos os invasores, resolveu apor a seu nome – “e Maranhão” – em homenagem à vitória. Pelo lado materno, Severo descende dos Pedrosa, família originária da Inglaterra. Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão, pernambucano de Nazaré, era em 1847 eficaz colaborador de Fabrício Gomes Pedrosa, seu conterrâneo, estabelecido em Guararapes, onde gozava de grande prestígio comercial e social. Mais tarde Amaro veio a casar com uma das filhas de Fabrício, D. Feliciana Maria da Silva Pedrosa. Dessa união nasceram 14 filhos, nove homens e cinco mulheres: Fabrício, Maria, Amaro, Pedro Velho, Inês, Sérgio, Adelino, Augusto Severo, Isabel, Luís, Joaquim, Amélia, Alberto e Áurea. Dentre os irmãos de Augusto Severo destacava-se, em primeiro plano, Pedro Velho, médico e senador. Afastou-se do Congresso para governar o Rio Grande do Norte. Durante a campanha abolicionista, com seu grande prestígio, conseguiu, em todos os municípios, a libertação dos escravos, que receberiam a carta de alforria a 11 de julho de 1888. O Rio Grande do Norte teria sido, assim, o segundo Estado brasileiro a abolir a escravatura, antes mesmo da Lei Áurea. Foi, também, um dos baluartes da defesa da República, fundando o Jornal “A República”, hoje patrimônio do Estado. Orador dos mais eloqüentes, quando da partida de Ruy Barbosa para Haya, coube a Pedro Velho a honra de saúda-lo. E de tal maneira o fêz que Ruy, ao agradecer, considerou suas palavras, “jóias derramadas de um vaso de ouro”. Em viagem para o Rio de Janeiro veio a falecer, a bordo do paquete “Brasil”, no dia 9 de dezembro de 1907. Seu corpo, embalsamado, foi transladado para Natal. Alberto Maranhão, bacharel em Direito, foi deputado federal e governador do Rio Grande do Norte. Era o mais jovem e sempre lutou para que não ficasse no esquecimento a obra de Augusto Severo. Realizou inúmeras conferências sôbre o assunto, merecendo destaque à de Londrina, Paraná, em agôsto de 1942: “Aviação e Aeronáutica”; Fabrício Maranhão dedicou-se ao comércio e depois à agricultura. Foi dono de Engenho e chefe político. Amaro Barreto estudou piano em Paris, de onde regressou casado. Foi professor da Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro. Sérgio Maranhão desapareceu muito cedo. Joaquim Cipião e Luís Carlos, gêmeos, são falecidos. Luís Carlos viveu sempre no interior (Canguaretama), dedicando-se à agricultura. Cipião era músico. Chamavam-no “Maestro”. Em Natal trabalhou no Teatro Carlos Gomes, do qual foi diretor. As irmães de Severo souberam, também honrar o nome ilustre dos Albuquerque Maranhão. Quando visitei D. Maria Amélia Tavares, no Rio de Janeiro, senti a emoção com que se referia aos seus. Senhora amável, alma pura, falou-me de Augusto Severo, das suas experiências com um balão de brinquedo, a que dera o nome de “Augusto Severo Filho”. E contou: – Um dia meu irmão veio despedir-se. Ia a Paris, realizar seu sonho. Berta, a filha hoje freira, pediu-lhe: “papai, quero que o senhor leve esta medalhinha, porque tendo mêdo dêsse negócio de subir...” Severo para satisfaze-la, guardou a medalha. D. Maria Amélia é a única filha viva daquele casal feliz de Macaíba... Aos vinte e três anos a personalidade de Augusto Severo já estava bem definida. O físico avantajado era o espêlho fiel de espírito vigoroso. Figura simpática, sabendo o que dizia e fazendo-o desembaraçadamente, com os olhos mansos, o sorriso fácil e os gestos aristocratas, conquistava sem dificuldade as pessoas mais esquivas. Quantas jovens não sentiram bater mais forte o coração, ao ver aquêle moço elegante, dominando os salões! Mas o caráter retilíneo de Severo não lhe permitia viver farsas amorosas. Aprendera, desde cedo, a ser leal. E não demorou a encontrar aquela que seria sua bem-amada espôsa. A história dêsse amor pode ser contada em rápidas palavras> Fabrício estabelecera em Canguaretama a “Usina Maranhão”. Severo foi visitar o irmão, certa vez, e lá conheceu Maria Amélia Teixeira de Araújo. Era a professôra das filhas de Fabrício. Amaram-se e Severo pronunciou a frase tão antiga e sempre atual: – Eu quero casar com você! Maria Amélia, jovem, simples, dedicada, compreendeu aquêle que a escolhera. Casaram-se em Recife, regressando depois para Natal. Tiveram cinco filhos: Augusto Severo Filho, falecido quando cursava o segundo ano de Direito; Otávio, morto também; Berta, religiosa; Sérgio, comerciante em Natal; Mário, advogado em São Paulo. Em 1893 os Severo transferiram-se para a Capital da República. Já eram nascidos Augusto, Otávio e Berta. Sérgio nasceu em Petrópolis e Mário, na Ilha de Paquetá. Seu nascimento marcou o ponto final na existência de Dona Maria Amélia. A educação das crianças foi confiada à avó materna. Merece registro especial, neste capítulo, o nome de Sérgio Severo, fiel guardião da chama votada à memória do pai. Graças a êle, Augusto Severo não é prisioneiro do esquecimento, em sua terra natal. Sérgio nasceu aos seis de janeiro de 1895. Após a morte de sua mãe, seguiu para Natal, com os irmãos, em companhia da avó. Em 1908 voltou ao Rio de Janeiro para estudar. Cursou o Ginásio Pio-Americano e o Colégio Anchieta, em Friburgo, onde se formou. Foi bom estudante. No fim do curso teve seu nome incluído entre os dez melhores alunos, merecendo a tradicional coroa de louros. Regressando a Natal, em 1914, foi auxiliar de comércio, funcionário federal e comerciante. Hoje, mantém escritório de representação e conta própria. Casou-se a 11 de setembro de 1918, com D. Adla Lucena, de cuja união existem seis filhos: Berta, casada com José Elízio Bezerra Cavalcanti; Augusto Severo Neto, casado com Creuza Fonseca; Lúcia, casada com Paulo Paes Barreto; Maria Amélia, casada com Oldanir Soares. Agora os netos aí estão, crescendo para perpetuar o nome ilustre: Sônia, Olga, Berta, José, Virgílio, Sérgio, Paulo Maurício. O mais nôvo membro da família é Afonso Henrique. Presto esta homenagem ao filho de Augusto Severo, que dêle herdou, como patrimônio admirável, um espírito nobre e humanitário. I I I Terminado o curso primário em Macaíba, quando foi aluno do professor Manuel Fernandes de Oliveira, Augusto Severo prosseguiu os estudo na capital do Estado. Os pais queriam desenvolver a inteligência prodigiosa daquele garoto que, nas tardes nordestinas, às margens do Potengi, soltava papagaio “sui-generis”, motivo de admiração para seus colegas. Era um predestinado. Moço ainda, na várzea do Cunhaú, perscrutava o azul do céu, admirando o vôo alto e sereno dos corvos vorazes. E não o fazia com o pensamento inconseqüente de menino. Já compreendia que, nas altas paragens, está uma das maiores glórias do homem: – Voar! Êle ainda conquistaria o espaço... Evoquemos êsse brasileiro, em pleno desabrochar físico e mental, sentindo os imensos problemas da navegação aérea, numa época em que tôdas as realizações a respeito, eram consideradas loucura. Mais tarde, foi estudar na Bahia. Ingressou no Colégio fundado por Abílio César Borges, Barão de Macaúbas, e dirigido por Ernesto Carneiro Ribeiro (1). Ali revelou grande paixão pelas ciências matemáticas. Fêz o curso de humanidades com brilhantismo. Agora, era necessário prosseguir. Viera em escala ascendente: Macaíba, Natal, Bahia. Findo o curso, que fazer? Augusto Severo já decidira e o consentimento paterno veio sem demora. Ei-lo, então, na Metrópole, desconhecido e obscuro. (1) – No Colégio Abílio César Borges estudaram grandes vultos brasileiros como Ruy Barbosa e Castro Alves. Ruy, mais tarde, no Senado, durante a discussão do nosso Código Civil, travou a histórica polêmica com seu ex-professor Ernesto Carneiro Ribeiro, encarregado da redação do referido Código. Em 1880 estava matriculado na Escola Politécnica. Cursava o segundo ano de Engenharia, quando, adoecendo, teve de abandonar os estudos. Foi preciso mesmo deixar o Rio, fugindo de um ambiente que lhe era adverso (2). Voltava a Natal, para aquêle clima quente, sêco e saudável. Aos 18 anos lutava, polìticamente, ao lado de Pedro Velho. Professor de Matemática, do Ginásio Norte Riograndense, foi nomeado seu vice-diretor. Bem humorado, habilidoso, conquistou, desde logo, a simpatia e a confiança dos alunos. Companheiro nos estudos e brincadeiras, com aquêle desembaraço magistralmente retrato por seu conterrâneo, o historiador Luís da Câmara Cascudo: “Em nossa casa, interrompeu uma conversa para ir ensinar, na cozinha, um extraordinário môlho-branco para peixe assado. Trazia um caixote de brinquedos para as crianças. Era costureiro, alfaiate, musicista, dançarino, declamador, nadador, Nortista bem “derramado”, dava abraços de tamanduá-bandeira, rindo como se o riso fôsse o mais alto elogio do bom-humor. Sem ódios, sem lembranças de vingança, tudo nêle era improvisação, arrebatamento, afeto. Augusto Severo voltou a preocupar-se com o problema aéreo, levado por imaginação poderosa e entusiasmado com as experiências de Júlio César Ribeiro de Souza, o aeronauta paraense. Realizou certa vez, com os alunos um passeio até as dunas de Natal. Cada excursionista levava seu papagaio: armação leve, de talas, cobertas de papel colorido. Prêso numa das extremidades, o cordel longo e, na outra, o “rabo”, de tiras de pano. A frente do grupo buliçoso ia o vice-diretor. Um homem o acompanhava carregando-lhe o papagaio revolucionário, porque não tinha “rabo”, semelhante em sua estrutura aos aviões de nossos dias. (2) – Nesse ponto, há divergência: para alguns, o regresso de Severo teve por motivo, tratamento de saúde. Mabel Tavares, que publicou uma coleção de artigos. Sôbre o tio ilustre, conta a história de maneira diferente: “Estava Augusto Severo cursando, no Rio, a escola de Engenharia, quando se apaixona por uma jovem de dezesseis anos, de rara beleza e virtudes, – Maria de Nazaré Pedrosa, conhecida entre os seus por Dondon e, mais tarde, casada com o Dr. Pacheco d’Avila”. E acrescenta: “Por questões íntimas de família, ficou resolvido que Augusto deixaria a Escola, regressando ao lar a fim de interromper o romance que então desabrochava. De qualquer forma, por doença ou por amor, a verdade é que Severo deixou os estudo e voltou a Natal. Severo explicou aos meninos: – Êle subirá porque tem asas. No futuro, cortará os céus em tôdas as direções, e o motor substituirá o trabalho do barbante. Alguns não entenderam as palavras do professor. E riram. O gênio é sempre motivo de zombaria. Momentos depois, ante a admiração de todos, o “Albatrós” (êsse o nome, do papagaio) foi jogado ao ar, de cima de um monte de areia. Prêso pelo forte cordão, ganhou altura, batido pelo vento e orientado por seu criador. Foi um sucesso. Quando terminou a brincadeira, descreveu aos rapazes o avião que idealizara. – Terá hélice, será dirigido, levantará vôo acionado por um motor de pouco pêso e alta potência. Nesse tempo, Severo já vinha experimentando o motor de que falava aos Alunos. Preocupava-se em descobrir o moto-continuo. O motor a combustão interna, para capacidade máximas de rotações, ainda não existia. E sòmente sua realização foi que permitiu a grande vitória de Dumont, no “mais-pesado-que-o-ar”. I V Há, na vida dos grandes homens, estranha semelhança: todos começam humildemente, trabalhando, sofrendo, lutando, sem esmorecer, pelo Ideal que os anima. Severo não constituiu exceção. Muito cedo aprendeu a lutar pela vida. Aos dezoito anos, já pesava sôbre seus ombros a dupla responsabilidade de vice-diretor e professor de Matemática, no Ginásio Norte Riograndense. Mas era digno, em sua modesta posição. O que possuía, muitas vêzes repartia com os mais necessitados. Em 1883 fechava o Ginásio, acontecimento que viria modificar por algum tempo, o rumo de sua vida. Augusto Severo dedicou-se, então, ao comércio, como guarda-livros da casa comercial “Guararapes”. Pedro Velho, em 1887 travava no Estado, a batalha abolicionista (3). (3) – Campanha iniciada em 1758 pelo padre Manuel Ribeiro da Rocha. Não mais a abandonaram os brasileiros até a extinção total da escravatura com a Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel a 13 de maio de 1888. Longa foi a jornada: em 1854 surgia a primeira conquista, rumo à abolição. Era a Lei de Euzébio de Queiroz, extinguindo o tráfego negro. A seguir (1871) veio a Lei do Ventre Livre, de Rio Branco; depois (1885), a Lei Saraiva Cotegipe, emancipando os escravos sexagenários. É uma das mais emocionantes páginas da nossa História. Reuniu nomes como Nabuco, Patrocínio, Luís Gama, Ruy Barbosa, Castro Alves. O desaparecimento da escravatura acarretou graves problemas à lavoura, pois desviou cêrca de 700.000 trabalhadores, criando obstáculos mesmo para o escravo que se viu, temporàriamente, abandonado à própria sorte. Vencendo tôdas as dificuldades, sobrepôs-se o sentimento humano de nossos patrícios que sacrificaram seus interêsses, em troca da liberdade dos cativos. E o que mais nos honra, ante a opinião do mundo, é ter-se operado essa reforma em nossa organização social, sem derrame de sangue. Já os americanos no norte não conseguiram fazê-la, sem a Guerra de Secessão (1861-1864). Severo, alma e fibra de uma juventude, apoiou-se com o entusiasmo que o caracterizava. O povo norte-riograndense acostumou-se a ouvir, em tôdas as manifestações, a palavra fácil, persuasiva, daquêle moço atraente, empenhado, com ardor, em defesa da raça oprimida. Não parou mais. A campanha republicana, logo a seguir, empolgou-o até o término, 15 de novembro de 1889 (4). Era político que surgia, vigoroso. A êsse tempo, Pedro Velho havia fundado “A República”, do qual Severo tornou-se assíduo colaborador. Abordando sempre questões elevadas, dignas de seu caráter íntegro, deu provas convincentes de valor. Suas atividades abolicionistas e republicanas conquistaram a confiança dos conterrâneos e posição destacada no seio do partido predominante no Rio Grande do Norte. O Ginásio Norte Riograndense, atual Ateneu, voltou a funcionar em 1890, a serviço da mocidade potiguar que já ofereceu ao Brasil nomes ilustres na política, nas letras, nas artes, como Henrique Castriciano, Tavares de Lyra, Nísia Floresta, Auta de Sousa. A convite do governador Xavier da Silveira, Severo reassumiu suas funções na cátedra de Matemática. Atendendo ao pedido de Adelino, seu irmão, associou-se à firma A. Maranhão & Cia. Importadora e exportadora, que funcionou até 1892. Nesse ano, porém, abandonava o comércio, para o qual não tinha vocação, dedicando-se inteiramente à política e à ciência aérea. (4)– A República é o fruto de trabalho longo e paciente. Sua conquista não foi uma revolução, mas o resultado de uma evolução lenta e segura. De há muito ocorriam no Brasil movimentos de independência e separatistas que traziam a semente republicana. A opinião pública foi preparada hàbilmente por todos os meios. Pela imprensa e tribuna. José do Patrocínio, Nabuco, Ruy Barbosa, Silva Jardim e Benjamin Constant, no Exército, conquistaram a compreensão e simpatia do povo. A conjuração teve por chefes Constant (em realidade, a alma do movimento) e Deodoro da Fonseca. No dia 15 de novembro de 1889 as tropas demandaram o centro do Rio de Janeiro. Deodoro assumiu o comando e marchou para o Campo de Santana, onde proclamou a República. A seguir, intimou o Ministério a demitir-se. No dia 16 tomou posse o nôvo govêrno em caráter provisório. Na mesma data foi entregue a Pedro II a mensagem que o convidava a abandonar o país dentro de vinte e quatro horas. V Augusto Severo resolveu, afinal, abandonar a idéia de encontrar o moto-contínuo. Era impossível, como ainda hoje o é, malgrado o progresso da ciência. Não mais se interessou, também, em estudar o “mais-pesado-que-o-ar”. Agora, todos os seus estudos e esforços buscavam descobrir um meio para dar estabilidade e segura dirigibilidade aos bal´´oes. Imaginou e desenhou, então, o “Potiguarânia”, que não chegou a ser realizado, mas influenciou na construção, mais tarde, do “Bartolomeu de Gusmão”, realmente o seu primeiro dirigível. O “Potiguarânia” já nos demonstra, na rusticidade do desenho, o ineditismo da sua concepção aeronáutica. (Êste assunto será estudado, com maiores detalhes, no capítulo – A concepção aeronáutica de Augusto Severo). Em 1893 idealizou o “Bartolomeu de Gusmão” que conquistou aplausos nos meios científicos, merecendo destaque a opinião do ilustre engenheiro Dr. Pereira Reis, lente de Astronomia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, cujo fac-simile aparece em outro local dêste livro. Quando ocorreu a revolta da esquadra comandada por Custódio José de Melo, no pôrto do Rio de Janeiro, Floriano Peixoto, a quem se deve a derrota de tôdas as fôrças do sebastianismo e a consolidação da República, pensou em aproveitar o balão como arma de guerra. Mandou construir o aeróstato por conta do governo, numa demonstração da grande confiança que lhe despertara Augusto Severo. É que reconhecera nele o espírito forte, a coragem, a lealdade dos Albuquerque Maranhão. Cedeu-lhe o Quartel do realengo para a construção do dirigível e preparo do gás hidrogênio. Não existindo em depósito, no Ministério da Guerra, a liga de alumínio que o inventor solicitara para a barquinha (nesse tempo ainda não era freqüente o emprêgo de ligas metálicas), realizou-a em bambu. A fragilidade do material não permitiu fôsse bem sucedida a experiência de fevereiro de 1894. Os revoltosos retiraram-se do Rio, com a aproximação da esquadra do Almirante Gonçalves, e o govêrno desinteressou-se pelo “Bartolomeu de Gusmão”. Severo não se limitou sòmente à aeronavegação seu gênio inventou, pois criou também o tubo motor de reação, de especial importância para as máquinas destinadas a produzir velocidade de marcha. Consta que, posteriormente, o tubo motor foi utilizado na Marinha Inglêsa, onde a torpedeira “A Turbina” chegou a desenvolver 37 milhas. É ainda invento de Severo o sistema de hélice introduzida no interior de um tubo, que atravessa o navio segundo o grande eixo, permitindo-lhe marchar avante e a ré, invertendo apenas o movimento do tubo motor. Imaginou, também, um fantástico “canhão industrial” para ser utilizado nos campos e navios. Infelizmente, não contamos com maiores esclarecimentos sôbre êsses inventos de Augusto Severo. Nenhum documento, nenhuma fotografia... A propósito, achamos interessante transcrever duas importantes reportagens do jornal A NOITE (Rio de Janeiro), para que se tenha uma idéia de como – após a morte de Severo – começou a morrer também no esquecimento e no desprêzo, sua grande e meritória obra. A matéria refere-se à construção do “PAX” e nos dá outras valiosas informações. A primeira reportagem, publicada na edição de 20 de setembro de 1932 (trinta anos após a morte de Severo) trata “do achado feito por um leigo, na antiga residência da família do saudoso cientista patrício, Professor Pereira Reis, de um canudo de fôlha, contendo interessantíssimos documentos referentes ao dirigível “PAX”, que foi todo o sonho e quase a glória de Augusto Severo”. As declarações foram prestadas por Álvaro Pereira Reis, filho do professor. Interessante observar sua opinião sôbre o acidente com o balão, assunto que abordamos no capítulo XVI e para o qual chamamos a atenção do leitor. A segunda reportagem, publicada doze anos depois, na edição de 26 de maio de 1944, o assunto “do achado feito por um leigo”, voltou à baila. Notamos, então, que os documentos sôbre a construção do “PAX” e outros inventos de Severo, estavam em poder do Sr. Joaquim de Barros, que os ofereceu gentilmente ao Museu da Aeronáutica. DOS TEMPOS DO “PAX” AOS DIAS DO ”ZEPPELIN” Interessantes declarações feitas A NOITE por um dos colaboradores do inventor brasileiro Augusto Severo e filho do professor Pereira Reis. “A NOITE, tratando , ha dois dias, do achado feito por um leigo, na antiga residência da família do saudoso cientista patrício professor Pereira Reis, de um canudo de fôlha, contendo interessantíssimos documentos referentes ao dirigível “PAX”, que foi todo o sonho e quase a glória de Augusto Severo, êsse esplêndido tipo de caboclo do Norte, que empregou a sua bela inteligência, durante cêrca de um decênio, na descoberta da dirigibilidade do balão, primeiro na esforçada tentativa do “Bartolomeu de Gusmão” , inspirado na obra do sábio Bartolomeu Lourenço de Gusmão”, padre brasileiro, e depois, em Paris, onde sucumbiu, quando atingia a última etapa da sua patriótica iniciativa, teve ocasião de comentar o fato, aproveitando a oportunidade, assás agradável, para focalizar o acontecimento mundial, que fêz vibrar, emocionou vivamente a alma nacional e elevou muito alto o nome do grande inventor brasileiro. * * * Na entrevista que publicamos, então, dizíamos que – “seus herdeiros (de Pereira Reis), entretanto, não tendo, possìvelmente, a visão do valor inestimável dêsses desenhos, ao venderem a casa da rua Carolina Santos ao Sr. Antônio Goulart, capitalista português, ofereceram-lhe o canudo precioso”. O Sr. Álvaro Pereira Reis, engenheiro mecânico, filho do finado engenheiro Manoel Pereira Reis, cuja trajetória nos nossos meios didáticos e científicos foi das mais brilhantes, tendo exercido, na Escola Naval, a cátedra de Topografia e Geodesia, na Escola Politécnica, a de Cálculo e Astronomia e no Observatório da mesma Escola, de sua fundação, o cargo de diretor, sentiu-se duplamente tocado pelo episódio, por isso que, reverenciando a memória de seu progenitor, foi também colaborador de Augusto Severo. Disse-nos o Sr. Álvaro Reis o seguinte: – As relações e a amizade de meu saudoso pai com Augusto Severo datava do ano de 1894, quando Floriano Peixoto,m então no govêrno, levando em boa conta a iniciativa do imortal patrício, incumbiu o Dr. Pereira Reis, na qualidade de diretor da Carta Cadastral, de proceder ao exame e experiências no balão “Bartolomeu de Gusmão”, construído em terreno do Realengo,m fronteiro à estação. Tinha eu, então, dez anos de idade, apenas. |Minha ação se limitara, inicialmente, a acompanhar meu pai; mas, nas visitas constantes que fazia ao galpão do Realengo, acabei me interessando vivamente pelo assunto, arvorei-me em colaborar daquela obra que, cada dia, mais me empolgava e maravilhava. Pude fixar alguns dos auxiliares de meu pai no trabalho de que o incumbiu o govêrno: os engenheiros Gabriel Junqueira e Mário Rôxo, o Dr. Domingos de Barros, químico especializado, encarregado da fabricação de hidrôgeneo e o coronel Eduardo de Borja Reis, florianista extremado, pai de um dos estimáveis redatores d’A NOITE. Lembro-me que o último dos cavaleiros citados escapou milagrosamente da morte. Certo dia, metade do primitivo galpão, que fôra construído às pressas por operários do Arsenal de Marinha, ruíu, em virtude de haver cedido a amarração, que não era perfeita, e o coronel Borja Reis, que lá se achava, ficou em perigo de vida, sendo salvo a tempo pelos companheiros. Conhecia a existência dos estudos preliminares do dirigível “PAX”, cujos desenhos foram executados, na sua grande maioria, por meu tio Orozimbo Xavier de Azevedo, engenheiro civil, por um processo alemão (desenho aguado). Embora não tivesse sido o inventariante dos vens deixados pelo Dr. Pereira Reis, não ignorava, entretanto, a existência dos documentos agora encontrados, pelo fato de me haver perguntado por êles o Dr. Domingos de Barros, a quem respondia, sempre, ser estranho ao seu paradeiro. A minha parte nos trabalhos do “PAX”, em Paris, não foi pequena, visto como acompanhei até ali o inventor, tendo trabalhado eficientemente na sua confecção, só não tendo sido vitimado também por uma casualidade do Destino. É assim que, fazendo eu parte da tripulação do aparelho, juntamente com Augusto Severo e o mecânico Saché, vi-me, à ùltima hora, com grande tristeza para mim, afastado do meu posto. É que Augusto Severo se viu forçado a modificar certos detalhes de construção do aeróstato, aumentando-lhe o pêso, preferentemente com lastro, que pudesse ser alijado. Eu pesava 72 quilos; Saché era mais leve, tinha 52 quilos, apenas, e levava sôbre mim a vantagem de ser conhecedor profundo dos motores Buchet, de cuja casa era técnico e que impulsionavam o aparelho. Reporta-se em seguida o Sr. Álvares Pereira Reis à causa do desastre ocorrido com o “PAX”. – Muita gente existe entre nós que ignora completamente a causa da queda do balão de Augusto Severo, sendo que, não poucas pessoas dizem coisas inverosímeis, em detrimento da obra formidável realizada pelo ilustre brasileiro. Devo recordar, entretanto, que a imprensa francesa foi unânime em exaltar a excelência do invento. No meu entender, acho que o sinistro se deu devido o mau funcionamento dos carburadores daquela época (processo de barbotage). Daí a explosão no carburador, comunicando-se ao depósito de essência, provocando nova explosão, que atingiu o aerostato. De modo diferente se manifestou o engenheiro Buchet, que entendia ter sido a explosão motivada pela grande proximidade entre o balão e os motores, dos quais se teriam desprendido, a seu ver, pelo tubo de descarga, alguma chama, inflamando esta os gáses que se desprendiam do invólucro do “PAX”, apesar de envernizado. Não me afasto, porém do meu ponto de vista, mesmo porque, ainda que o balão estivesse distanciado dez ou mais metros do motor, a coluna de fogo provocada pela explosão de trinta litros de gasolina atingi-lo-ia. Aliás, êste perigo foi previsto, tanto assim que os motores foram cobertos por “camisas de Davi”. Estas serviram durante as experiências do aparelho, no ar, prêsos pelo cabo sustentado por operários, que acompanhavam as evoluções. Verificado, porém, nas experiências, que os motores funcionavam em boas condições, Augusto Severo, necessitando de lastro, substituiu as referidas camisas por sacos de areia, o mesmo que fizeram comigo. Damos as referências acima, por no-lo haver solicitado o Sr. Pereira Reis, que terminou sua palestra conosco, dizendo que a família de Augusto Severo procurará reaver os documentos de que tratou A NOITE, em momento oportuno , adiantando achar-se em São Paulo o filho mais velho do inventor, “sobrevivente, que do saudoso patrício herdou o nome”. _______________ Em reportagem publicada na edição de 20 de setembro de 1932, A NOITE revelou o curioso achado de documentos de inestimável valor histórico, que haviam pertencido a Augusto Severo, muitos dos quais escritos do próprio punho dêsse nosso glorioso patrício, mártir da aviação. Tendo sido criado, recentemente, o Museu Histórico da Aeronáutica, a cargo do tenente-aviador José Garcia de Sousa, foi-nos dada a oportunidade de apresentar a êsse oficial o Sr. Joaquim de Barros, atual possuidor daquela documentação e que, recebendo-a depois de haver a mesma passado por várias mãos, procurara A NOITE, em 1932, para divulgação. Eis como o Sr. Joaquim de Barros se tornou possuidor de tão valioso legado: Como se sabe, Augusto Severo ao pretender construir seu balão, transferiu-se para o Rio de Janeiro, e associando-se ao engenheiro Pereira dos Reis, passou a freqüentar sua residência, à rua Carolina Santos n° 48, na Bôca do Mato. Aí, com auxílio do desenhista Paulo P. Martins levantou tôdas as plantas do “PAX”, que, com rascunhos de autoria do inventor, foram postas num canudo de fôlhas de flandres, o qual ficou em poder do engenheiro. Ora, com a morte de Augusto Severo, o Sr. Pereira Reis, sendo proprietário do tesouro histórico, tê-lo-ia certamente guardado com maior avareza. Seus herdeiros, entretanto, não possuindo a visão do valor inestimável dêsses desenhos, ao venderem a casa ao Sr. Antônio Goulart, capitalista português, ofereceram-lhe naturalmente o canudo precioso. Por seu turno, o Sr. Goulart, ao mandar reparar o prédio, já agora histórico, chamou ao cabo das obras, os empreiteiros V. G. Barros e Irmão, e lhes disse: – “Levem vocês os trastes velhos, porque vou residir em Botafogo!”. E quando os dois irmãos transportavam os cacarecos, o Sr. Goulart surge com o canudo histórico e diz ao Sr. Joaquim de Barros, com a maior simplicidade dêste mundo: “Tome isto também!”. E passou-lhe às mãos o tesouro deixado por Augusto Severo. O Sr. Joaquim de Barros ficou com a valiosa carga cêrca de cinco anos, a rolar pela sua casa. Em 1930, quando “Graf Zepellin” chegou ao Rio, o Sr. Joaquim de Barros teve suas atenções voltadas para a estranha semelhança dos desenhos com a aeronave germânica. Mas não revelou a ninguém as suas impressões. Com a volta, porém, ao Rio, em 1932, daquêle aparelho, o Sr. Joaquim de Barros tomou-se de entusiasmo, revelou o caso a amigos e, afinal, veio à redação de A NOITE, movido, já então, por sentimentos patrióticos e pelo desejo de tornar conhecido dos brasileiros os desenhos, plantas e cálculos de autoria do nosso patrício, que havia de se tornar célebre pela contribuição inestimável dada ao desenvolvimento da aviação, ao lado de dois outros gloriosos brasileiros o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e Santos Dumont. Êsses documentos, que agora passam a figurar como verdadeiras relíquias, no Museu Histórico da Aeronáutica, por doação do Sr. Joaquim de Barros, constam de três cadernos de cálculos algébricos, do próprio punho de Augusto Severo, plantas originais do inventor e desenhos da Paulo Martin, que se enumeram: “Motores rotativos de enorme potência, tipo Augusto Severo”; “Desenho do balão completo, com a barca em posição horizontal e secção longitudinal”; figura mostrando a roda do pára-choques, com a seguinte anotação assinada por Augusto Severo, à margem e a lápis; “Arredondar as cabeças dos parafusos dos mancais (parte de fora). Tirar a corda. – .A. S; “Motores de tubos reversíveis; um trecho do mapa do Brasil; figura mostrando os cálculos do balão, com tôdas as escalas, somas e totais; desenho determinando o volume do balão; o balão visto de pôpa e prôa; dispositivos do eixo; determinação dos dispositivos do balão; desenho de Augusto Severo ao pensar sôbre a forma do dirigível e reproduzida em escala pelo desenhista Paulo Martin; desenho, finalmente, do balão completo.”